Melhores da Década: Livros

Li muitos livros interessantes nessa década, na qual mergulhei fundo no gênero ficção-científica. Abaixo, as minhas escolhas de melhores livros da década.

10- ORGULHO E PRECONCEITO E ZUMBIS – Jane Austen e Seth Grahame-Smith

Orgulho e Preconceito e Zumbis

Meu mais recente fascínio é com o gênero mash-up novel, e como acredito que ele é a representação direta da nossa cultura contemporânea baseada em Ctrl C/Ctrl V. No entanto, nesse romance divertidíssimo que funda esse novo estilo, ocorre algo que ultrapassa simplesmente a “brincadeira” de colocar um tropo de horror no meio da Inglaterra georgiana. A própria presença dos zumbis serve como comentário para a sociedade inglesa do século XVIII e como análise do estilo da própria Jane Austen.

9- HARRY POTTER E O ENIGMA DO PRÍNCIPE – J.K. Rowling

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O livro que todo mundo queria dissecar mesmo era o último da série, RELÍQUIAS DA MORTE. Contudo, tive um prazer muito maior lendo O ENIGMA DO PRÍNCIPE, o “livro 6”, que lida de maneira muito bem elaborada aquela que é a temática mais essencial da primeira década do século XX: a memória. As viagens feitas por Harry ao passado de Voldemort e como elas acabam por afetar seu desenvolvimento como personagem (sem falar no desenrolar da trama) são o ponto alto, assim como o tom mais meditativo na escrita de Rowling. Além do mais, esse é o livro em que AQUELE personagem morre.

8- O LIVRO DE DAVE – Will Self

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Se Jonathan Swift escrevesse uma distopia para os tempos atuais, acho que o resultado seria esse. Will Self, um dos mais criativos escritores britânicos da atualidade, narra a história de um futuro pós-apocalíptico em que os últimos humanos de Londres tem como religião um diário escrito no final do século XX por um taxista boca-suja (o Dave do título). A linguagem do livro é uma delícia por si só, com um vocabulário próprio, mas a crítica à religião é de um ironia contundente.

7- POR ACASO – Ali Smith

por-acaso-ali-smithUm leitura deliciosa, que mistura arquétipos da literatura mundial a elementos da cultura pop de forma perfeita. Contando a tradicional história de um personagem misterioso que se infiltra em uma família aparentemente normal, Smith traça perfis psicológicos com grande delicadeza, quase sempre se utilizando de referências cinematográficas das mais variadas, o que dá ao livro uma qualidade lúdica.

6- ORYX E CRAKE -Margaret Atwood

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Misturando biopolítica a uma forte demonização da sociedade do espetáculo, Atwood realiza a mais realista contundente distopia desse início de século. Mesmo com clones, vírus mortais e cientistas loucos, o livro é uma imensa ode à persistência do espírito humano.

5- A ESTRADA – Cormac McCarthy

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Ninguém hoje tem uma escrita que se compare à de Cormac McCarthy (na literatura americana, só Hemingway, talvez). Sua precisão vocabular e frases curtas conseguem um efeito tão árido e feroz quanto a América apocalíptica em que um pai e seu filho tem de lutar para sobreviver. Algumas passagens são de um horror parecido com nada que eu já tenha lido; outros são de uma sensibilidade tocante.

4- 2666 – Roberto Bolaño

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Nesse aqui, vou roubar um pouquinho – na verdade, não acabei de ler esse livro ainda. Mas tendo lido um pouco mais da metade dele (de um calhamaço de quase 900 páginas), posso dizer com certeza que é a obra mais ambiciosa que já li. Tendo como pano de fundo uma série de assassinatos ocorridos no México, Bolaño (em seu último romance) faz um profunda reflexão sobre o papel da literatura (e dos estudos literários) num mundo confrontado pela violência a cada momento. Sua mistura de realidade, sonho e romance investigativo cativa desde a primeira páginas, com metáforas inacreditáveis e personagens tão bem descritos que parecem ser pessoas que conhecemos um dia mas perdemos o contato.

3- A CAVERNA – José Saramago

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Fazendo uma releitura de Platão, Saramago constrói uma narrativa vasta incapaz de ser lida de maneira única. Tendo referências que vão de Kafka ao Velho Testamento, a obra pode até ser vista como uma crítica ao neoliberalismo ou uma sutil análise da sociedade do simulacro. Não importa sobre qual viés é lida, o que importa é que esse romance ilustra como o contraste entre os pequenos escultores e um grande shopping center (que tem um forte elemento distópico em sua confecção) acaba por servir de grande referência para o homem se localizar no mundo.

2- NÃO ME ABANDONE JAMAIS – Kazuo Ishiguro

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Mistura de clássico romance inglês com ficção científica, essa que é a obra-prima de Ishiguro testa os limites da ciência para expor o quanto há de realmente solidário e altruísta nas relações de amor e amizade.

1- TUDO SE ILUMINA – Jonathan Safran Foer

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Com toda a cartilha do pós-moderno em mãos e um ambição imensa, Safran Foer usa diferentes vozes narrativas para desfiar o tecido da memória de forma subjetiva e não-linear. O protagonista busca o passado do seu avô, descobrindo no meio do caminho um motorista cego, histórias assombrosas da 2a Guerra Mundial e um guia ucraniano de coração gigante chamado Alex Perchov (um dos grandes personagens da literatura contemporânea). Alguns elementos judaicos servem de pano de fundo, mas o apelo é universal. Impossível conter as lágrimas nas páginas finais. O melhor romance de estreia que já li.

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7 respostas a Melhores da Década: Livros

  1. Raphael diz:

    Só li o Enigma do Príncipe mesmo. O Orgulho, Preconceito e Zumbis eu só posso ler depois de ler o original!! rsrs

  2. Daniela diz:

    Olá

    Acabo de conhcer o blog através do cavalca e fiquei muito contente com o que li Sua lista está muito boa. Dos que já li concordo com cada palavra, dos que não li ainda, fiquei ansiosa para fazê-lo.

    Voltarei mais vezes.

    Abraços.

  3. karine diz:

    Adoro o Jonathan Safran Foer, tanto esse da lista (a-m-o o ucraniano!) quanto o Extremely Loud & Incredibly Close são ótimos! Vc já leu o livro da esposa dele a Nicole Krauss? Em português saiu como A História do Amor. Ela também escreve muito bem.
    Li Não me abandone jamais depois que vc indicou por aqui e é um favorito absoluto. Até li outros livros do Ishiguro.
    O Livro de Dave, para mim, foi uma experiência interessante, me confundi muitas vezes, mas no fim gostei muito.
    Concordo que O Enigma do Principe é mais interessante que As Relíquias, mas o meu preferido é o Calice de Fogo, só porque acho mais divertido.🙂
    Já coloquei na lista desse ano para ler: Por Acaso e Orgulho e Preconceito e Zumbis.

  4. Xico diz:

    Já te falei que me sinto mais inteligente quando leio as coisas q vc escreve ou qdo estou falando com vc? Vc é o tipo de pessoa q me faz alguém melhor… Livros anotados. Como moro no rincão paulista, as vezes quase não tenho tanta oportunidade de acompanhar os clássicos modernos. Mas suas predileções musicais, literárias e cinematográficas, tem aumentado minha experiência. Vlw, Dersô!

  5. Tati diz:

    Bela lista! Me deu uma saudaaaaaaaaade do meu livro de Orgulho e Preconceito e Os Zumbis. Fiz a besteira de emprestar e nunca mais vi. Fica a dica.

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