BRIGHT STAR

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Como bom professor de literatura inglesa e nerd que sou, quando foi anunciado o projeto da cinebiografia de John Keats, um dos grandes poetas românticos ingleses, fiquei super-ansioso. Se por um lado fiquei contente de ter a possibilidade de ver nas telas o retrato de um dos meus escritores favoritos, por outro lado me preocupou que natureza da adaptação da vida de Keats fosse seguir a regra dessas cinebiografias pavorosas que endeusam o protagonista mostrando como ele era ‘especial’.

Contudo, me tranquilizava que BRIGHT STAR estaria nas mãos de Jane Campion. Apesar de não ter feito nada realmente muito bom nos últimos anos, afinal trata-se da mulher por trás de RETRATO DE UMA MULHER (ótima adaptação de Henry James). Além, é claro, de O PIANO (quem fez O PIANO não precisa provar mais nada na vida).

Hoje, depois de ter assistido a BRIGHT STAR, não só vejo que as minhas preocupações era infundadas como também me surpreendi de como o filme é ao mesmo tempo simples em sua forma, porém extremamente analítico em seu retrato dos relacionamentos (amorosos, familiares, de amizade, de negócios) da Inglaterra do início do século XIX. Diferentemente da maioria dos filmes de época que sentem a necessidade de um certo exagero (das atuações ao figurino), há em BRIGHT STAR uma fina sutileza que dispensa floreios – a própria natureza instável de sua trama central já é suficiente para envolver o espectador em um outro universo.

Em termos gerais, o filme trata do amor proibido entre John Keats (poeta sem dinheiro, que vive dos favores de amigos e de seu ‘patron’) e Fanny Brawne, moça do campo um tanto moderna para seu tempo. A impossibilidade da consumação do relacionamento entre os dois passa primeiro pela instabilidade financeira de Keats e depois pela sua instabilidade de saúde, quando contrai tuberculose. Só que felizmente Campion nos poupa das grandes cenas de dramalhão com personagens gritando que não tem dinheiro ou trilhas bombásticas anunciando a morte de alguém a cada vez que ele tosse. Pelo contrário: há uma certa calma e tranqulidade na condução dos grandes dramas envolvendo o relacionamento entre Fanny e Keats – como se realmente se aproximasse de um poema.

Uma das decisões mais interessantes de BRIGHT STAR foi a de não ter a ambição de tentar transpor para cinema o processo criativo do escritor, o que teria sido uma tarefa inglória e provavelmente insatisfatória (especialmente em se tratando de um poeta romântico com o nível de subjetividade de Keats). Na verdade, Jane Campion preferiu concentrar-se na leitura dramática das cartas de dos poemas dos dois protagonistas, o que resulta em várias das melhores cenas do filme. Um dos melhores exemplos disso é a sequência em que ambos lêem o maravilhoso “La Belle Dame Sans Merci”, um dos meus poemas favoritos.

Abbie Cornish como Fanny Brawne se comporta no início como uma espécie de Elizabeth Bennet de Hampstead, o que  me incomodou um pouco. Mas à medida em que o filme avança impressiona como ela sustenta a personagem ao ponto de não ser possível partilhar da sua dor. Ben Whishaw é um Keats que capta perfeitamente toda a atmosfera romântica  do período mas também não sem mantêm alheio aos problemas do mundo material. O sempre ótimo Paul Schneider quase rouba todas as cenas como Charles Brown, o amigo e ‘patron’ de Keats – sua mistura de comicidade, mal-caratismo e por fim culpa é conquistadora.

E se não fosse o suficiente, durante os créditos finais ainda há Ben Whishaw fazendo uma leitura inspiradíssima de “Ode to a Nightingale”. Belíssimo filme que meio que passou despercebido, mas que tem tudo para virar cult entre literatos e românticos inveterados.

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3 respostas a BRIGHT STAR

  1. Wally diz:

    Com certeza aumentou minhas expectativas diante do filme. Ainda que sou foco tenha sido mais o literário.

  2. Um dos melhores filmes do ano e provavelmente um dos mais subestimados também. Antes de ver tinha certo receio que fosse mais um romance de época sem muito a acrescentar. Ao final, estava completamente apaixonado.

  3. Pingback: Rosebud é o Trenó! | O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó!

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