Top 10: Filmes da minha vida

2- O SILÊNCIO DOS INOCENTES

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A EXPERIÊNCIA:

Tinha 12 anos e o cinema já tinha se tornado meu passatempo principal. Na cidadezinha em que morava, geralmente os filmes chegavam muito atrasados. Portanto, quando chegavam ao cinema de lá, os “indicados” ao Oscar já tinham sido declarados vencedores ou não. No entanto, com O SILÊNCIO DOS INOCENTES foi diferente. Já estava cansado de ouvir que o filme era assustador e que estava indicado a 7 Oscars. Então lá fui eu com dois amigos assistí-lo cheio de expectativas. Como me deixaram entrar pra ver um filme desses com 12 anos permanece um mistério.

E lembro de que, quando o filme acabou, não gostei tanto. Achei que teve pouca ação. O tão comentado vilão Hannibal Lecter aparecia muito pouco. E aquele final era totalmente insatisfatório: como não mostra ele devorando o Dr. Chilton? O tempo foi passando e, por vários motivos, sempre surgia a oportunidade de rever O SILÊNCIO DOS INOCENTES. E a cada vez que assistia descobria uma coisa mais interessante, um aspecto novo que não tinha visto anteriormente, e vários dos elementos pra mim que eram ‘defeitos’ passaram a ser qualidades. Acho curioso porque não existe pessoa mais medrosa do que eu – mas tem algo nesse filme que me faz vê-lo sempre com um interesse mórbido. Hoje tenho praticamente todos os diálogos decorados e acho até graça como alguns conseguem ser tão perversos. Pra mim é um dos grandes clássicos do cinema moderno – e um dos filmes da minha vida.

O FILME:

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Como definir precisamente o gênero de O SILÊNCIO DOS INOCENTES? É sem dúvida um suspense, misturado a um thriller psicológico, com tintas de terror envolto na estrutura de um filme policial. Se por um lado temos um refinado jogo de gato e rato baseado em diálogos extremamente bem desenvolvidos, por outro temos momentos pra lá de repulsivos.

No entanto, esse não é o principal ponto aparentemente anacrônico do filme. O que acho mais interessante em O SILÊNCIO DOS INOCENTES é como ao mesmo tempo em que temos uma narrativa clássica de história de perseguição, existem elementos dessa mesma história que inovaram o gênero, servindo de influência a inúmeras outras produções. O filme narra a história de uma aprendiz de detetive que, com a ajuda de oficial sênior do FBI, começa uma investigação para descobrir a identidade e o paradeiro de Buffallo Bill, um psicopata que captura mulheres, as tortura e depois arranca a pele delas. Dessa forma, o que temos em O SILÊNCIO DOS INOCENTES são arquétipos que se fazem presentes em praticamente todas as histórias de aventura (das histórias do Rei Arthur a STAR WARS): uma figura jovem descobre um grande talento e o utiliza para derrotar o vilão da história; ela conta com a ajuda de um mentor e parte em uma jornada; no entanto, ao final, essa figura tem de enfrentar sozinha o vilão.

O golpe de mestre de O SILÊNCIO DOS INOCENTES é, contudo, descontruir esses arquétipos fazendo com que o espectador os reconheça mas também tenha uma leve sensação de estranhamento, como se a história se encontrasse entre o terreno do familiar e do desconhecido, aumentanto o suspense e criando a idéia de que tudo pode acontecer. A principal e mais óbvia mudança é colocar a figura do ‘jovem aprendiz’ como uma mulher. Sempre me surpreende como é uma história essencialmente feminina: uma mulher busca um assassino de mulheres que as captura porque quer ser uma mulher. Não há sequer uma personagem feminina do filme que caia no estereótipo da mulher frágil e sensível, precisando de um homem para protegê-la: Catherine, a última capturada por Buffalo Bill, trama um plano de fuga do fundo de seu poço; sua mãe senadora negocia politicamente com um canibal; Fredrica Bimmel, a primeira assassinada, sai de sua cidadezinha em busca de um futuro melhor.

Mas sem a força de Clarice Starling O SILÊNCIO DOS INOCENTES não seria a obra-prima que é. Sua figura baixinha, aparentemente frágil e de feições delicadas é lançada nesse mundo essencialmente masculino. Starling está sempre sendo observada por homens (e o filme enfatiza isso de diversas formas): num elevador lotado, numa sala de funerária, num lobby de aeroporto, por trás do vidro de um hospício e até mesmo num porão através de óculos de visão noturna. Ela sempre atrai a visão masculina e nem sempre é por causa de um interesse meramente sexual: o escrutínio masculino se dá para tentar entender como aquela jovem moça consegue ser tão determinada e feroz na busca de seus objetivos.

Seria fácil mostrar Clarice Starling como uma espécie de vítima, até porque ela é a única personagem que tem seu passado devassado (coisa que nesse tipo de filme geralmente cabe ao vilão, que necessita de uma explicação para a sua maldade). Quando a terceira vítima de Buffallo Bill é encontrada, é exatamente na West Virginia natal de Starling – o que associa definitivamente aquela que caça com aquelas que são caçadas pelo assassino. É ela que vai tratar com um sociopata canibal e ter sua vida destrinchada e, finalmente, é ela que realizar o embate decisivo com Buffallo Bill.

Clarice Starling é a filha do relacionamento lésbico de Ellen Ripley e Nancy Drew: ela tem a determinação e a auto-confiança da primeira, assim como a argúcia e o raciocínio lógico da segunda. Não é à toa que O SILÊNCIO DOS INOCENTES já serviu de ponto de referência para vários estudos do papel da mulher em cinema (e é curioso que no mesmo ano de 1991 outro grande magnum opus do pós-feminismo tenha sido lançado – THELMA & LOUISE). Felizmente, uma personagem tão complexa e interessante teve em Jodie Foster uma perfeita interpretação. A incrível mistura de repressão, força de vontade, honestidade e até mesmo medo que a a atriz consegue desenvolver em Clarice torna seu desempenho um dos mais ricos dos últimos tempos.

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Outro elemento interessantemente desconstruído no filme é a figura do ‘mentor do herói’. Em O SILÊNCIO DOS INOCENTES, esse papel aparentemente cabe a Crawford (Scott Glenn), o chefe do setor de Estudos do Comportamento do FBI. É ele que lança Starling no caso de Buffallo Bill e conduz a investigação. Mas o curioso é que em praticamente todas as cenas dele com a protagonista, é ela que tem os principais insights, toma as decisões corretas e aparenta saber mais sobre o caso do que o próprio Crawford. Pra mim, ele representa menos um mentor no sentido tradicional (e sem o menor resquício de interesse amoroso, algo corajoso) mas sim uma figura paterna que Starling tanto anseia, o que é ilustrada na cena do aperto de mão dos dois.

Se em Crawford essa figura do mentor é exercida de forma mais burocrática, é com Hannibal Lecter que ela vai se realizada de forma mais efetiva. Até hoje me supreende a inteligência com a qual esse personagem foi tratado – seja nos diálogos de Ted Tally, seja na condução meticulosa de Jonathan Demme, seja na imortal interpretação de Anthony Hopkins. Seria tão fácil transformar Lecter num vilão cartunesco, ou então simplesmente num monstro raivoso – porém, o que mais chama atenção é a delicadeza e a finesse do personagem. No entanto, sabemos pelo olhar de Hopkins que há algo de muito sinistro ali pronto para ser liberado e a grande parte do suspense de O SILÊNCIO DOS INOCENTES é não saber quando essa explosão maligna irá acontecer:será que ele vai atacar Clarice? vai pular no pescoço de Dr. Chilton? vai haver um encontro dele com Buffallo Bill?

E é essa figura que, com pouco mais de 20 minutos no filme inteiro se tornou o maior vilão da história do cinema, vai servir de guia para Starling encontrar o esfolador de mulheres. O relacionamento de Starling e Lecter é um dos mais interessantes já filmados, onde há um discurso extremamente racional e lógico envolvido nos diálogos (ela quer informações dele, ele quer analisá-la psicanaliticamente) mas a carga emocional que permeia as entrelinhas é abrasiva. Daí o cerne do filme se encontrar exatamente nas três cenas em que Lecter e Starling tem juntos. Nada mais são do que conversas, mas a qualidade das interpretações, os cortantes diálogos e a imensa criatividade na condução dessas cenas (em grande parte devido ao excelente trabalho de um dos meus diretores de fotografia favoritos, Tak Fujimoto) fazem com que haja uma intensa mistura de sentimentos entre os dois protagonistas: há um respeito, admiração, e até mesmo, amor (“People will say we are in love”).

Eu gosto muito de como Jonathan Demme (um diretor insuspeito para um filme como esse) insere um pano de fundo interessantíssimo para uma história tão horrenda. O principal foco aqui é a América pobre, suja, de pessoas vivendo tristes vidas em cidades medíocres, do ‘white trash’. São poucas as obras no cinema americano que abordam esse lado, e de certa forma tanto Buffallo Bill (em interpretação perfeitamente ambígua de Ted Levine) e suas vítimas são produtos dessa América destituída.

Acredito ser proposital o fato de que o FBI, mesmo que seja mostrado como uma instituição sólida e eficaz (o filme foi usado como propaganda para o alistamento feminino) não consegue muita coisa: eles invadem a casa errada, tem informações desencontradas e geralmente precisam de figuras à margem (a jovem estudante ambiciosa, dois especialistas em insetos, um canibal) para resolver o caso. Da mesma forma, não acredito ser coincidência que a bandeira norte-americana apareça no filme em três momentos que são exatamente o oposto da patriotada estereotipada que é a regra em Hollywood: quando a cabeça de Benjamin Raspail é encontrada (o carro está coberto com a bandeira norte-americana), quando Clarice atira em Buffallo Bill (que tem uma bandeira americana na janela) e, mais marcadamente, na imagem de pesadelo do policial que tem suas tripas arrancadas por Hannibal Lecter, exposto ali como sendo uma obra de arte macabra em meio a faixas com as cores da América.

O SILÊNCIO DOS INOCENTES acabou se tornando famoso também por fatos além de sua narrativa: é um dos tres únicos filmes da história (juntamente com ACONTECEU NAQUELA NOITE e UM ESTRANHO NO NINHO) a ganhar os cinco Oscars principais (filme, diretor, ator, atriz e roteiro); ganhou o Oscar sendo lançado em fevereiro, ou seja, é um dos poucos filmes vencedores do prêmio capaz de ser lembrado quase um ano após o lançamento; foi o filme que começou a moda  dos serial killers em cinema, com seus porões sujos e mulheres aprisionadas (sem ele não haveria um novo Max Cady, SEVEN, Keyser Soze, entre outros); iniciou um debate sobre a questão da vilanização dos homossexuais no cinema (apesar de eu achar que a performance de Ted Levine vá muito além do estereótipo do ‘gay malvado’); e iniciou uma verdadeira série focando no personagem Hannibal Lecter (eu particularmente adoro o espetáculo grand guignol que é HANNIBAL, acho DRAGÃO VERMELHO soporífero e nunca vi aquela prequel com o Hannibal Lecter jovem).

O SILÊNCIO DOS INOCENTES é um filme assombroso em vários sentidos e sua atmosfera, bastante devedora do gótico, extrai desse gênero sua principal lição: ao mesmo tempo em que causa o medo e a repugnância, atrai de forma única e sedutora.

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6 respostas a Top 10: Filmes da minha vida

  1. É um bom filme, mas na minha modesta opinião, não é nada de extraordinário. Fico-me pelas 4 estrelas.

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD – A Estrada do Cinema

  2. karine diz:

    Esse filme também é um dos meus top 10, eu gosto de histórias de serial killers. Tenho medo do Hannibal Lecter até hoje. Todos os Oscars merecidos.

    Obrigada pelo link no post anterior.🙂

  3. asnalfa diz:

    Amo esse filme. A sua crítica está à altura do filme. Adorei essa hsitoria das bandeiras e do feminismo que está implicito no filme. Vc presta atencao em detalhes que a mioria do público nao percebe.
    Continue assim!

  4. Wally diz:

    É um belo exercício cinematográfico. Um dos meus prediletos do gênero.

  5. valeria.medeiros diz:

    Como sempre resta pouco a dizer, mas umas notinhas…
    1) você é mais cruel que o Lecter com Dragão Vermelho, não é tão mal assim e o fator “corpo” tem uma dimensão muito interessante se pensarmos melhor…
    2) a “desconstrução” dos elementos estruturantes deste tipo de narrativa cinematográfica ( detesto estes clichés pós-modernos mas não outros, então… ) realmente choca com o mentor do herói. Mas o conflito ético dela, a dúvida, a empatia e pq não dizer a atração mais q intelectual é o q me mantém presa todo o tempo.
    3)Obrigada, pessoalmente, por colocar o crime em lugar tão elevado em uma lista respeitável em meio a esta onda leviana de blogs etc… Crime e romance policial/criminal é sempre assim: informalmente todo mundo diz que adora, mas pouquíssimos se dispõe a falar seriamente de algo tão sério e profundo ( em sua simplicidade que só as mentes mais analíticas podem apreciar ). Allsaid, fui…

  6. Vi este filme meses antes da premiação do Oscar (e até estranhei vê-lo disputando quase um ano depois de ter sido lançado), assisti novamente após ser relançado no cinema com o hype do Oscar, vi inúmeras vezes em vídeo e tv. Infelizmente nenhuma sequência ou prequel lhe fazem justiça, e entendo porque a Judie Foster não participou de “Hannibal”. Até hoje ainda o tenho em ótima conta, só chegando perto “Seven”.

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