Top 10 – Filmes da minha vida

Esta lista representa mais do que os meus filmes preferidos – são os filmes da minha vida, aqueles que mudaram a minha própria atitude com relação ao cinema. Estou revendo todos eles, para logo depois colocar minhas impressões aqui.

4- MORTE EM VENEZA

Death_in_Venice_Poster

A EXPERIÊNCIA:

Acredito que a primeira vez que ouvi falar em MORTE EM VENEZA foi no ótimo programa “Cinemania” que passava na Manchete (sou jurássico, fazer o que?) com o Wilson Cunha. Não lembro porque o filme foi mencionado, só recordo que a cena mostrada foi obviamente a do final. Não entendi direito, mas achei de uma beleza hipnotizante. Fui procurar mais sobre a obra e descobri que era baseado em um romance de Thomas Mann. Curiosamente, li o livro (também um dos top 10 da minha vida) antes de ver o filme.

A primeira vez que assisti a MORTE EM VENEZA foi num desses ‘Corujão’ da Globo. Vi no jornal que ia passar e coloquei o o despertador para tocar às 3 da manhã, e achei muito bom. No entanto, fui um privilegiado por poder assistí-lo depois no cinema, quando o filme foi relançado em cópia restaurada. A exibição foi numa sessão com meia dúzia de gatos pingados num início de tarde em Botafogo. Ser imerso no universo de Luchino Visconti através da tela grande é uma experiência estética e sensorial. Fiquei embasbacado, e desde então é um dos filmes da minha vida.

O FILME:

Morte em Veneza

É interessante que, revendo o filme hoje, pensei muito de como uma produção como MORTE EM VENEZA seria muito difícil de ser realizada atualmente. A história exige do espectador uma entrega completa, principalmente porque funciona menos como uma narrativa linear e mais como um conjunto de experiências estéticas. Primeiramente, porque somos lançados no filme através do ponto de vista do protagonista Gustav, o que demanda um ritmo lento, flashbacks inesperados e nem sempre compreensíveis, além de discussões sobre a natureza da arte. Em segundo lugar, MORTE EM VENEZA tem um  tremenda ambição artística, já que procura discutir o conceito de beleza  através de um homem velho obcecado por menino de 14 anos. É claro que interessa mais a Visconti uma discussão sobre os mistérios e o fascínio da beleza do que um retrato vulgar da pedofilia, mas não há como negar que existe algo de tremendamente perturbador na relação intrigante que se desenrola entre o velho Gustav e o jovem Tadzio.

A ambição artística de MORTE EM VENEZA se mostra ainda mais evidente com seu inesquecível uso das sinfonias de Gustav Mahler – que chegam a ser quase que um personagem no filme. Não é coincidência que o nome do famoso compositor seja o mesmo do protagonista: a principal mudança feita na adaptação do livro de Thomas Mann foi transformar o protagonista de escritor em compositor. Visconti quis que Gustav (o protagonista) fosse uma espécie de representação de Gustav Mahler. O quanto de Mahler há no personagem é discutível, mas a principal contribuição do compositor para o filme é sem dúvida sua música.

Morte em Veneza2

A primeira vez que o trecho da 5a sinfonia de Mahler é usada é na estupenda sequência inicial que mostra o navio a vapor chegando à Veneza ao nascer do sol. Visconti ali já dita o ritmo do filme, mostrando o vaporetto cruzando toda a tela lentamente, para ao final da cena sermos apresentado ao atormentado Gustav. Já nesse primeiro momento, já somos brindados com a visceral atuação de Dirk Bogarde, uma das maiores da história do cinema. Sem uma palavra – apenas com gestos e olhares – é possível saber que tipo de homem ele é, e especialmente o que está passando por sua mente. É um trabalho de imersão no personagem completo, com os flashbacks apenas moldando de forma factual o que já pensávamos sobre ele de forma subjetiva.

Ao chegar no hotel em Veneza, Gustav conhece então o jovem Tadzio (a esfinge Bjorn Andresen) e começa sua obsessão pelo rapaz. Gosto especialmente da cena em que Gustav vê Tadzio pela primeira vez: não parece ser nada marcante – Gustav o admira mas seus olhos (e a câmera) continuam a vagar pelo salão observando a estranha variedade de pessoas. Ele tenta ler seu jornal novamente, mas aí retorna a olhar para Tadzio, e o percebe melhor. Seu fascínio começa ali.

O que impede que vejamos Gustav apenas como um mero stalker (como quando ele segue Tadzio pelas ruas de Veneza em mais de uma ocasião) é o prazer que ele tem apenas em observá-lo como quem observa o David de Michelangelo, por exemplo. É uma admiração cuja carga sexual é reprimida em detrimento de uma apreciação estética, que a partir de um certo ponto (a cena do elevador), se torna amor. O mais interessante aqui é que Tadzio sabe do fascínio que exerce sobre Gustav e, com seu charme e sorriso de Mona Lisa, acaba se tornando um mistério em si, mesmo que em diversas cenas aja como um adolescente normal.

MORTE EM VENEZA, à medida em que se desenrola, contrasta a beleza de Tadzio e as discussões sobre arte com a morte, a doença e a velhice de uma Veneza decadente. O desfile de personagens bizarros é de deixar qualquer David Lynch orgulhoso. Visconti reforça essa dualidade o tempo todo, talvez para ilustrar o quanto o ideal do “belo” e do “sublime” se aproximam da morte – é Kant puro.

Ao final, o próprio Gustav – aparentemente superior àquela caricatura de personagens venezianos – se torna um deles, com seu rosto maquiado e cabelo pintado, talvez tentando retornar a uma juventude para sempre perdida (seria uma tentavia de conquistar Tadzio ou a si mesmo?). Posteriormente, ele acaba pagando o preço pela sua busca incessante pelo sublime no que é um dos mais arrebatadores finais da história do cinema. Primeiro, porque tem o mar – e cenas de mar tornam QUALQUER filme melhor; segundo, porque a fotografia do papa Pasquale de Santis faz de cada frame um verdadeiro quadro renascentista; e terceiro, porque a música de Mahler é o elo que traduz o ideal grego de Tadzio (apresentado de forma suprema através de sua pose de deus Hermes) no transbordamento de emoções de Gustav.

MORTE EM VENEZA é um filme que me assombra: é uma história que mistura de forma perturbadora o refinado e o vil, o belo e o sujo, a alegria e a tristeza. É uma alegoria muito forte sobre a vida e da morte. Um dos filmes da minha vida.

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11 respostas a Top 10 – Filmes da minha vida

  1. Wally diz:

    Baita texto! Ainda não vi este…

  2. Parece ser do tipo de filme obrigatório, mas acho que é o primeiro de sua lista que ainda não vi.

  3. Acredita que ainda não vi? Nunca li assim nada sobre o filme, exceptuando nesse momento. Excelente artigo, parabéns!

    Cumps.
    Roberto Simões
    CINEROAD – A Estrada do Cinema

  4. Foda. Não é por menos que é um filme de um mestre! Obra-prima!

  5. Santiago. diz:

    Descobri esse filme vendo um outro. Foi no longa, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa do Woody Allen, não lembro muito bem a cena, mas a película foi essa. No caso deles, Allen fala sobre o livro do Thomas Mann. Ao procurar mais informações sobre ele, acabei encontrando o filme do Luchino Visconti. Ou seja, um tipo de maravilha que apenas o cinema e a internet são capazes de proporcionar. De uma indicação feita por uma cena de um filme e uma simples pesquisa na net, você acaba encontrado coisas maravilhosas.

    Concordo quando você fala que numa primeira análise o filme é enfadonho. Provavelmente, seria um fracasso nos tempos atuais, onde quanto mais tiro e sangue é melhor. Mas cinema é contemplação e imersão. E quem procura isso, irá se deliciar vendo Morte em Veneza. Assistir ao filme é entrar nos conflitos internos de Gustav Aschenbach que vai bem além das dicotomias ocidentais. Seus pensamentos envolvem paixão, beleza, morte, auto-flagelação, auto-conhecimento, perfeição. É isso, o querer atingir a inatingível perfeição. Enfim, é um filme imperdível e obrigatório.

    Abraço.

  6. Cara, eu vi esse filme uns 2 anos atrás no cinema (numa mostra italiana que teve por aqui) e também marcou profundamente minha vida cinéfila. OP absoluta, saí babando do cinema. Parabéns pelo texto.

  7. Pingback: Rosebud é o Trenó! | O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó!

  8. Breno Schmitt diz 15/4/2010 diz:

    È uma das maiores obras-prima do cinema na década de 70.Visconti é genial. A 5 sinfonia de Gustav Mahler compõe o filme. Parece que Mahler sabia que Luchino iria fazer esta maravilhosa e tocante película mais tarde.È um dos meus top-films. Ah! o texto é brilhante e elucidativo. Parabens……

  9. Glória diz:

    Brilhante, compreensível, instigante o seu texto. Alguns filmes são definitivamente revisitáveis; uns, embora continuem excelentes, envelhecem com o tempo, outros permanecem atemporais. Pois assim é Morte em Veneza. Eu o revi ontem e minhas emoções foram mais intensas que há 5, 8, 15 anos atrás. Você está certo quando afirma que cenas com o mar engrandecem os filmes. Lembrei-me do belíssimo Os Incompreendidos de Truffaut. Parabéns por esse artigo que enriquece nossa leitura do filme.

  10. Anderson diz:

    Q bom q gostou do texto Glória. Esse filme merece ser revisto sempre.🙂

  11. Pingback: | Cheque Sustado

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