Top 10 – Melhores novelas

Hoje em dia não assisto TV, mas teve uma época em que adorava, especialmente novelas. Algumas realmente marcaram minha vida, e também a televisão no Brasil. Sei que uma escolha de melhores novelas vai muito da faixa etária de cada um, portanto a lista abaixo é bem pessoal.

10- TIETA

tieta

“Tieta” foi sem dúvida uma das novelas mais divertidas da televisão, além das mais desencanadas com relação a sexo. Betty Faria, maravilhosa, interpretava a personagem-título criada por Jorge Amado. Escurraçada de Santana do Agreste, ela retorna por cima da carne seca e causa um rebuliço na cidade. Ela desenvolve uma relação com seu sobrinho na trama (vivido por Cassio Gabus Mendes), que se não me engano estudava pra ser padre. A novela ainda tinha a famosa Casa da Luz Vermelha, e o núcleo das ‘rolinhas’, com um Ary Fontoura ótimo. E como não lembrar da ‘mulher de branco’ (eu morria de medo!) e de Bafo de Bode? Os bordões também eram inúmeros: “Ciniiiiiiiiira“, “Mistéeeeeeeeeeeerio”, “Uh-uh, senta aqui”. Mesmo com todos esses elementos, o grande destaque da novela era Joana Fomm impagável como Perpétua, a vilãzona irmã de Tieta que sabia ser maligna e engraçada ao mesmo tempo. E quem não se lembra do que ela escondia em sua misteriosa caixa? Clássico!

Cena marcante: No meio da igreja, Tieta arranca a peruca de Perpétua.

9- MULHERES DE AREIA

Mulheres de Areia

O recurso da “gêmea boa/gêmea má” já foi usado em trocentas novelas, mas em nenhuma isso deu tão certo quanto em “Mulheres de Areia”, em que Glória Pires arrasava como a angelical Ruth e a sórdida Raquel. As maldades feitas com Tonho da Lua (Marcos Frota) por parte de Raquel eram absurdas, mas aumentavam o ódio do Brasil inteiro contra ela. O grande tchan da novela foi quando Raquel foi dada como morta e a boazinha Ruth toma seu lugar – um golpe de mestre que aumentava em suspense a cada capítulo. As esculturas de areia de Tonho da Lua também viraram febre e todo mundo na praia queria fazer parecido.

Cena marcante: Dada como morta, Raquel (mais cínica do que nunca) retorna para retomar o que é seu. “Vc é diabólica!” / “É, eu sei.”

8- O DONO DO MUNDO

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Mesmo que a novela tenha ficado famosa por ter sido derrotada historicamente pelo SBT e seu “Carrossel”, “O Dono do Mundo” foi uma das complexas telenovelas das 8, e com um mote inicial dos mais perversos. Felipe Barreto é um ricaço mau-caráter que faz uma aposta: vai tirar a virgindade de uma noivinha inocente, Márcia,  (Malu Mader) antes mesmo do marido dela. E consegue! Depois que descobre a tramóia, a moça quer vingança. A novela talvez tenha a sido a que de forma mais realista retratou uma questão básica das novelas: o contraste entre os ricos e os pobres. Antonio Fagundes deu vida ao maior crápula das telenovelas, mas que descobre depois ser filho de uma cafetina de luxo (Fernanda Montenegro, antológica). Antológica também era a abertura, que era uma brincadeira com O GRANDE DITADOR de Chaplin ao som de Tom Jobim. A história da personagem de Leticia Sabatella acabou roubando a trama, que foi forçada a se prostituir e vivia um complicado caso de amor com Beija-Flor (Angelo Antônio), embalado pela linda canção de Cazuza na voz de Luiz Melodia.

Cena marcante: Felipe conta para Márcia da aposta e humilhação pouca  é bobagem.

7- TI-TI-TI

novela ti-ti-ti

Jacques LeClaire e Victor Valentim foram os maiores antagonistas de um telenovela humorística, com notáveis interpretações de Reginaldo Faria e Luiz Gustavo. Eles se odiavam desde pequenos, e essa inimizade permanece quando os dois passam a ser rivais nos negócios da indústria da moda. LeClair já era um respeitado estilista quando surge o misterioso Victor Valentim e revoluciona o mercado da alta-costura. No entanto, mal sabe ele que Valentim é seu notório inimigo de infância. Só que Valentim  na verdade faz suas roupas baseados nos modelos que uma tia louca (Nathalia Timberg) faz para suas bonecas num hospício. Nem desconfia Valentim que ela é a mãe desaparecida de seu arqui-inimigo. Enfim, O DIABO VESTE PRADA é fichinha perto dessa trama. E como não se lembrar do batom Boka Loka, que fazia as pessoas se apaixonarem instantaneamente?

Cena marcante: LeClair descobre a verdadeira identidade de Victor Valentim

6- VAMP

vamp

Que CREPÚSCULO que nada! “Vamp” foi a apoteose dos vampiros pop, e além disso muito engraçada. Natasha (Cláudia Ohana), uma vampira pop star (Lestat, anyone?) consegue sucesso na carreira porque vendeu a alma ao Conde Vladimir Polanski (nome hilário para um Ney Latorraca mais hilário ainda!). A cantora vai a uma cidade litorânea do Rio pra gravar um clipe, mas seu verdadeiro objetivo é achar a Cruz de São Sebastião, o único objeto que pode matar o Conde e a livrar da maldição. A novela era construída com milhões de referências, da história de Bram Stoker até mesmo a A NOVIÇA REBELDE. Além de Latorraca, a família Matoso também era destaque, com Mary Matoso (Patrícia Travassos) como a maior diva vampiresca desde Catherine Deneuve. E o que foi a cena de Vlad dançando ‘Thriller’?

Cena marcante: A morte de Vlad. Morro de rir até hoje com os xingamentos: “Garoto chato!”, “Machona”, “Até o diretor contra mim”. A trilha ainda é a mesma do EXCALIBUR do John Boorman! E na esteira do sucesso do clipe de “Black or White” de Michael Jackson, o primeiro uso do efeito morphin em novelas.

5- A GATA COMEU

a gata comeu

“A Gata Comeu” é a novela definitiva dos anos 80, com suas roupas, referências e músicas. E, sinceramente, ninguém teve uma existência feliz até conhecer Jô Penteado. A personagem impagável de Christiane Torloni já teve vários noivos mas nunca chegou ao altar. Ela finalmente desenvolve uma relação de amor e ódio pelo professor Fábio (Nuno Leal Maia, ótimo), mas eles ficam perdidos numa ilha deserta junto com um grupo numa excursão (onde também estão as divertidas crianças “Curumins”, os goonies brasileiros). Muita coisa acontece: eles são dados como mortos, depois de meses são reencontrados,  Jô perde a memória e depois eles têm de retornar à ilha (LOST!) para que tudo volte ao seu devido lugar. De sua abertura pop art à melhor trilha internacional de novelas (‘Heaven’ do Bryan Adams, ‘Crazy for You’ da Madonna, ‘Smooth Operator’ da Sade, entre outras), ‘A Gata Comeu’ foi histórica, até hoje sendo uma das únicas novelas a ser reprisada duas vezes no ‘Vale a Pena Ver de Novo’.

Cena marcante: Podem tentar, mas nenhum bordão de novelas vai superar o ‘Bateu, levou’.

4- PANTANAL

Pantanal

Antes de mais nada, “Pantanal” é famosa por ter sido a única novela que arrasou com a Globo na audiência – a platinada esticava “Rainha da Sucata” e ficou em polvorosa com a febre que se estabeleceu com a trama de Benedito Ruy Barbosa. “Pantanal” foi a novela brasileira que melhor tratou de aspectos regionalistas, através de um realismo mágico e um discurso ecológico que caiu em cheio em um público cansado dos dramas urbanos. Além do mais, trazia um lado novo do Brasil para grande da população (o dia-a-dia dos grandes fazendeiros do interior do Brasil, as belezas do pantanal mato-grossense, a questão da luta de grileiros e posseiros) e o que inicialmente era exótico depois se tornou viciante. A galeria de personagens era vasta, da inesquecível Juma Marruá (Cristiana de Oliveira) ao almofadinha Joventino (Marcos Winter). Os brincos de Luciene Adami viraram febre, e a trama de Zé Leôncio com seu pai, o “Velho do Rio”, era perfeita num estilo mezzo ‘Hamlet’, mezzo Garcia-Marquez.

Cena marcante: Juma, a mulher-onça, arraca com uma mordida a orelha de um possível estuprador. Ninguém se mete com a Marruá!

3- ROQUE SANTEIRO

roque-santeiro

A mãe de todas essas novelas regionalistas de Aguinaldo Silva, só que dessa vez com o talento de Dias Gomes por trás. Mais do que “O Bem Amado”, “Roque Santeiro” foi um marco não só de audiência mas também na criação de seus tipos bizarros, de dar orgulho a Almodovar. Viúva Porcina, Sinhozinho Malta (‘tô certo ou tô errado?’), Zé das Medalhas, Beatu Salu e, claro, o Lobisomem. A trama paralela da produção cinematográfica que chega à cidadezinha de Asa Branca para filmar a história do “santo” era ótima, assim como o final da novela que fazia piada com CASABLANCA. Acho que foi a trilha de novela mais tocada de todos os tempos: “Mistérios da meia-noite/que voam longe”; “Dooooonaaaa/desses traiçoeiros/sonhooooos/sempre verdadeeeeiros”.

Cena marcante: A morte de Zé Medalhas. Até hoje me impressiona muito.

2- QUE REI SOU EU?

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Em termos de criatividade, acho que nenhuma novela supera “Que Rei Sou Eu”. Idade Média, chanchada, Revolução Francesa, ‘O Homem da Máscara de Ferro’, eleições diretas, filmes de capa-e-espada, feminismo – tudo era material pro vasto arsenal de referências que foi a obra-prima de Cassiano Gabus Mendes. A kubrickiana abertura já indicava que “Que Rei Sou Eu?” seria uma novela diferente, fazendo piada com questões bem sérias, mas nem por isso sendo fútil. Pelo contrário: a novela era um exercício de topicalidade, contando em tom de paródia os eventos marcantes da história do Brasil que se desenrolavam no final da década de 80 e início dos 90. No reino de Avilan, quando o rei morre (figura que remete a Tancredo Neves), sua esposa histérica, a despreparada rainha Valentine, assume o trono tomando as piores decisões possíveis para controlar o país, criando inclusive um plano econômico furado (piada ótima com Sarney e o Plano Cruzado). Só que há esperança na rebelião do povo, liderado pela figura heróica de Jean Pierre (um Collor com pinta de Errol Flynn), que na verdade é filho bastardo do rei. A novela trouxe uma mistura perfeita de comédia refinada com o melhor do pastelão, e havia em seus diálogos uma ironia digna de Moliére. A trama deu oportunidade para as  melhores interpretações da teledramaturgia nacional: Thereza Raquel era impagável como a rainha, Stenio Garcia foi genial fazendo o bobo da corte que na verdade era rebelde, e Antônio Abujamra roubava todas as cenas como o sinistro bruxo Ravengar. O interessante é que quando lembro de “Que Rei Sou Eu”, parece que foi uma série pois seus inúmeros acontecimentos parecem ter ocorrido em diferentes ‘temporadas’: o encontro com o mendigo Pichot que depois vira um príncipe de mentira, a máscara de ferro colocada em Jean-Pierre, Juliette (Cláudia Abreu lindíssima) inventando a minissaia e a participação hilária de Dercy Gonçalves como a mãe da rainha. Em termos de comédia inteligente, a Globo não fez nada igual.

Cena marcante: O último capítulo, com a vitória dos rebeldes, se tornou um comentário sobre as eleições diretas. E mesmo com um collorido tendencioso, emociona.

1- VALE TUDO

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Gilberto Braga é o Charles Dickens brasileiro. Nenhum autor nacional se preocupou tanto, através de uma narrativa ficcional, em retratar as diferentes facetas sociais do país. ‘Vale Tudo’ foi o retrato de um país que terminava a ‘decáda materialista’ e procurava buscar uma nova identidade, tendo que lidar com a podridão e corrupção do sistema político e econômico ao mesmo tempo em que lutava para mostrar que era “um Brasil que canta e é feliz.” A história de Raquel Acioly (Regina Duarte), que tem sua casa vendida em Foz de Iguaçu e é deixada na rua pela sua própria filha, Maria de Fátima (Glória Pires) é uma viagem pelas mazelas do Brasil, dos mais ricos aos mais pobres. Das manipulações na Bolsa do sórdido Marco Aurélio (Reginaldo Faria) até a honestidade à toda prova de Ivan (Antônio Fagundes), das armações do michê César (Carlos Alberto Riccelli) até o clipe de Aldeíde (Lília Cabral) no ‘Fantástico’, “Vale Tudo” era uma representação rica do Brasil que queria “mostrar a sua cara”.

Dos vários personagens genialmente criados por Gilberto Braga, nenhum foi mais marcante que a Odete Roitman de Beatriz Segall. A maior vilã desse lado de cá de Hannibal Lecter, a toda-poderosa da companhia aérea TCA era o supra-sumo da burguesia brasileira de extrema direita que queria mais era ver o Brasil pelas costas. Contudo, vários de seus comentários sobre a sociedade brasileira calavam fundo – e, na minha casa pelo menos, rendiam interessantes discussões. Nunca no Brasil vi novela render uma discussão maior do que o “Quem matou Odete Roitman?” Era como se não houvesse nenhum outro assunto no país inteiro por semanas, até o explosivo último capítulo onde se revelava que a responsável pelo crime era Leila (Cássia Kiss). “Vale Tudo” ainda chacoalhou questões sexuais, como o primeiro relacionamento lésbico da tv e o final escandaloso de Maria de Fátima: não só a vilã terminava bem, mas ainda era se casando com um príncipe europeu gay, que só queria um relacionamento de fachada para esconder seu verdadeiro interesse por César (e se compara com o TEOREMA de Pasolini!).

E como esquecer de Renata Sorrah e sua espetacular Heleninha, a figura mais tragicamente patética da história da TV?  Sua dinâmica com o mordomo Eugênio (Sérgio Mambertti, excelente) e suas tiradas cinematográficas era brilhante. Em resumo, “Vale Tudo” é a prova de que a teledramaturgia pode ser um trabalho sim de alto nível, lidando com diferentes aspectos complexos da realidade brasileira através de uma trama de alto entretenimento.

Cena marcante: É covardia escolher uma só cena, mas se é pra resumir todo o conceito da novela, fico com a banana do Marco Aurélio enquanto Gal Costa canta o “Brasil” de Cazuza. Logo depois de revelada a solução do mistério mais famoso da tv brasileira, foi um marco da impunidade.

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10 respostas a Top 10 – Melhores novelas

  1. Nossa, Anderson. Tu é mal vovô! Eu nem tinha nascido quando a maioria dessas novelas foram exibidas. Me lembro que as minhas irmãs falavam demais de “Vamp” e que sempre quis assistir. E que vídeo bizarro foi esse do Ney Latorraca dançando, hein? Parecia um “Welcome to my Nighmare” (do Alice Cooper) brazuca! No mais, não gostei da lista! Faltou “A Próxima Vítima” (a melhor novela de sempre!) e, claro, “A Usurpadora”!😄

  2. drickasouza diz:

    acho que o ze mayer esta em 50% dessa lista! #zemayerfacts

  3. karine diz:

    Excelente!!🙂

    Também são minhas favoritas. O Dono do Mundo nunca passou no Vale a Pena Ver de Novo, devia.
    Vale tudo eu vi todas as vezes que passou, tirando alguns modelitos ainda é muito atual. A gata comeu é divertidíssima.

  4. Wally diz:

    Poxa, podia mudar pra Top 11 e incluir Top Model? Essa marcou muito minha adolescência

  5. Leonardo diz:

    ótima lista! dessas, só não assisti roque santero, a gata comeu e o dono do mundo (as duas primeiras pq ainda não era nascido, e a última, pelo motivo que vc já citou: estava vendo carrosel!😀 )

    e todas as outras marcaram muito minha infância, lembro que chegava do pré e ia correndo ligar a tv pra ver Que Rei Sou Eu. acho que foi por causa dessa novela que gosto tanto de temas medievais.

    se fosse minha lista, colocaria também renascer, fera ferida (adorava a ilca tibiriçá), porto dos milagres (rosa palmeirão deeva!), e mais algumas outras que não me vem à cabeça.

    faça uma lista das melhores mini-séries também!

  6. flavio diz:

    ótima lista, porém faltou O clone(somente por amor), A viagem (tenho uma prima que morria de medo do Alexandre) e Guerra dos Sexos (fernanda montenegro e paulo autran, demais).

  7. Pra mim o top #1 é de “A Favorita” de longe. A melhor vilã, uma das melhores atuações e uma trama atípica.

    O top #2 iria para “Celebridade”. A reunião de clichês, com classe, em meio a bons diálogos e ótimo elenco.

  8. Vandinho diz:

    caraca concordo com a maioria dessas novelas que escolheu foram campeões de audiencia,foi um tempo em que a globo sabia fazer boas novelas pra prender a atenção do povo,entre elas tieta,vamp,mulheres de areaia ,pantanal foram as melhores de todos os tempos,mas a pantanal foi exibida na manchete mesmo assim até hoje não fazem mais novelas como antigamente você só esqueceu da novela a viagem que foi outra muito boa enfim não fazem mais boas novelas como antigamente…………

  9. Pingback: Rosebud é o Trenó! | O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó!

  10. balani diz:

    por favor alguem sabe onde encontro o depoimento de ravengar no final desa novela?????
    por favor alguem pode me responder???????????

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