Top 10 – Os filmes da minha vida

Esta lista representa mais do que os meus filmes preferidos – são os filmes da minha vida, aqueles que mudaram a minha própria atitude com relação ao cinema. Estou revendo todos eles, para logo depois colocar minhas impressões aqui.

7- UM LUGAR AO SOL

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A EXPERIÊNCIA

Por volta de 1996, antes do IMDB e do Rotten Tomatoes, a minha bíblia de cinema era um almanaque lançado pela revista SET, no estilo daqueles de Leonard Maltin, com críticas de vários filmes e suas cotações. Praticamente todo dia, quando não tinha muito o que fazer, sempre lia aqueles textos e imaginava assistir a todos os filmes que haviam ali. Os filmes clássicos ganhavam destaque nas páginas, com uma foto gigante com cinco estrelas em cima. Um deles que me chamava muita atenção era UM LUGAR AO SOL – não só por eu nunca ter ouvido falar daquele filme até então, mas também pela belíssima foto que estampava a página, com Montgomery Clift, Elizabeth Taylor e Shelley Winters. A crítica também fazia menção à famosa frase de Charles Chaplin: “É o melhor filme que assisti na vida. registra a supremacia do cinema sobre todas as outras formas de arte,” Isso só aumentou minha curiosidade e desde então procurava pelo filme em locadoras, mas nunca achava. Até que um dia ele passou no “Corujão” da Globo (que muito me ajudou a ver os clássicos). Marquei o horário e acordei de madrugada pra assistir. E realmente não me arrependi, pois assisti a um dos filmes da minha vida.

O FILME

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UM LUGAR AO SOL é baseado no romance “Uma Tragédia Americana”, uma das obras-primas do naturalismo norte-americano escrita por Theodore Dreiser. E o romance em si é baseado numa história ocorrida no início do século XX nos EUA. Ao mesmo tempo em que é uma arrebatadora história de amor com as características da Hollywood dos anos 50, UM LUGAR AO SOL é uma das mais profundas análises sobre a estrutura da sociedade na América e como o darwinismo social não só impede o cidadão de ser bem-sucedido, mas também o leva a atos extremos na busca da realização do sonho americano.

Montgomery Clift vive um jovem do interior que chega a grande cidade e consegue um modesto emprego na fábrica do tio rico. Lá conhece uma moça simples (vivida por Shelley Winters) com quem começa um relacionamento, mesmo isso sendo contras as regras da empresa. Mas logo depois, ele se encanta com uma belíssima moça da alta sociedade, vivida por Elizabeth Taylor, ao mesmo tempo em que passa a subir na vida e ser reconhecido no seu trabalho. Mas quando Shelley Winters aparece grávida e exigindo o casamento, como conciliar uma nova vida de sucesso e fortuna a esse relacionamento que agora apenas serve de âncora, que vai mantê-lo numa situação de pobreza para sempre? Assassinato parece ser uma opção.

Entre várias outras coisas, UM LUGAR AO SOL apresenta uma grande discussão sobre os dilemas morais que todos nós (em menor ou maior escala) temos de encarar na vida se quisermos ascendermos em termos profissionais e sociais. A derrocada moral do personagem de Clift é mostrada de maneira gradativa, mas com tons de suspense de fazer inveja a Hitchcock. Quando o personagem se vê num beco sem saída (terá de abandonar a mulher que agora ama e uma vida de sucesso por um casamento infeliz e uma existência pobre), a expressão no rosto de Clift é inequívoca, mesmo que ele não diga uma palavra: ele está pensando em um crime horrendo.

Aliás, uma das características mais fascinantes do filme é a decisão do diretor George Stevens de deixar vários elementos sem explicação, e muito é construído através do ponto de vista do espectador. Talvez essa tenha sido a razão do ótimo MATCH POINT de Woody Allen (claramente inspirado na trama de UM LUGAR AO SOL) não ter sido ainda melhor. O que Allen mostrou, Stevens sugeriu – e por isso as implicações morais desse filme de 1951 sejam mais contundentes que o de 2005.

Um Lugar ao Sol - Poster 1

Uma das coisas mais curiosas de UM LUGAR AO SOL é que seu enredo de tintas naturalistas, que se propõe a retratar certos elementos da luta de classes, ganha em nos atores interpretações fabulosas – mas nada no realismo do ‘method acting’ que em alguns anos teria um boom em Hollywood com Marlon Brando e James Dean. Seus atores são estrelas de cinema em primeiro lugar. Contudo, esse choque de estilos (história de abordagem realista e atuações totalmente ‘cinematográficas’), ao invés de criar um anacronismo que poderia minar a verossimilhança da história, acaba reforçando o aspecto ‘larger than life’, a magnitude, de UM LUGAR AO SOL.

Isso se dá de forma clara na interpretação de Elizabeth Taylor, no auge de sua beleza e charme. Stevens, espertíssimo, coloca a atriz em close-ups gigantes – e imaginem aquele rosto numa tela de cinema. Nesses momentos, fica claro porque o personagem de Clift se apaixona perdidamente por ela. Aliás, a química entre os dois atores é explosiva (Taylor depois contou em biografia ter sido perdidamente apaixonada por Clift, mas como teve de lidar com a bissexualidade do ator). Só a famosa cena do ‘tell mama’ (que diz a lenda, foi improvisada pela atriz) é suficiente para derreter qualquer coração.

Por mais romântico que seja, antes de mais nada UM LUGAR AO SOL é uma grande tragédia moderna, como o título do livro que lhe deu origem confirma. O próprio final do filme, corajoso ao extremo, é um retrato do preço que se paga para a sociedade (em especial a norte-americana)  quando não se sabe exatamente o seu lugar: se perde o amor, o sucesso, a liberdade – e até mesmo a vida.

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5 respostas a Top 10 – Os filmes da minha vida

  1. Filipe diz:

    Eu simplesmente AMO esse filme!!! E, coincidencia, eu o revi ontem!!!

    Também conheci em uma sessão do Corujão da Globo (será que foi na mesma exibição que você??? =P), quando, ao deixar o VCR gravando um programa qualquer, fui “presenteado” com esse filme, gravado por acaso, mas que me impressionou muito na época!!!

    Desde entao, perdi as contas de quantas vezes já o assisti!

    Elizabeth Taylor (assim como em Gata em Teto de Zinco Quente, De repente no último verão e mais alguns outros filmes que fez nesse período) mostra porque é um ícone de beleza em Hollywood. Gente, que mulher linda! Aquele rosto, aquele corpo… Esplêndida. E é ótima atriz. Foi esse filme que me fez apaixonado por ela e que me motivou a ver a maioria de seus filmes.

    A história é fantástica e, apesar de passada mais de meia década, continua atual e arrebatadora. E uma boa história bem contada é tudo o que precisamos para nos fazer cada vez mais apaixonados por cinema, né?

    abraço!

  2. Anderson diz:

    Filipe, fiquei muuuuuuuuuito contente com seu comentário e de ter encontrado alguém que goste desse filme tanto qto eu. Concordo com vc: essa história permanece atual, emocionante e acho até que o estilo do cinema de George Stevens está a frente de seu tempo. Abraços!

  3. Pingback: Rosebud é o Trenó! | O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó!

  4. Elder diz:

    Amo esse filme. Só fica atrás de casablanca e o vento levou. Perfeito!!! Muito boa sua crítica!

  5. Pingback: Rosebud é o Trenó! | O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó!

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