Top 10 – Filmes mais bonitos do cinema

Existem filmes que tem um visual tão arrebatador que, sinceramente, nem precisavam ter uma história. Mas quando a beleza das imagens casa perfeitamente com o enredo, fica melhor ainda. Aqui vão meus dez filmes preferidos nesse estilo:

10- A LIBERDADE É AZUL

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A trilogia das cores de Kieslowski é toda um desbunde visual, em especial porque cada filme tem que seguir a sua palheta específica de azul, branco ou vermelho. Mas acredito que A LIBERDADE É AZUL é o mais rico em termos de imagens, já que todos os tons de azul da fotografia (de Slawomir Idziak, responsável também pelo visual soturono de GATTACA e do quinto HARRY POTTER) se fazem presentes em praticamente todos os fotogramas. Em particular, as cenas de Juliette Binoche na piscina são de tirar o fôlego, ainda mais acompanhadas pela trilha clássica de Zbigniew Preisner.

9-  EVITA

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Darius Khondji é um dos meus diretores de fotografia favoritos, e sou fã de seu trabalho especialmente ao lado de David Fincher (ALIEN 3, SEVEN, O QUARTO DO PÂNICO). Mesmo se especializando em um estilo mais moderno, acredito que seu melhor trabalho seja em EVITA, em que o visual clássico de uma Argentina de sonhos é crucial para que o filme funcione como musical. As sequências do funeral de Evita são um espetáculo por si só, mas as cenas da alta-sociedade de Buenos Aires são perfeitas em sua mistura de beleza e também ironia .

8- O TERCEIRO HOMEM

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Filmes em preto-e-branco geralmente são lindos por si só, mas no caso de O TERCEIRO HOMEM o filme inteiro é construindo através de um jogo de luz e sombras (e bota sombra nisso) pelas ruas de Viena. A cidade na verdade se torna uma personagem que engole todos os envolvidos numa sinistra trama de espionagem, até chegar em sua arrebatadora última cena, que parece saída de um sonho.

7- UM CORPO QUE CAI

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Aqui grande parte do crédito é claro que vai para Hitchcock e seu ímpeto controlador. O que mais me chama atenção é o uso das cores – do cinza do tailleur repressor de Kim Novak, ao vermelho da Golden Gate e das flores de Carlota Valdez, ao verde que envolve Madeleien quando ela retorna do mundo dos mortos. E há algo de perturbador em seu enigmático final, com um suicídio em plena luz do dia causado por uma freira pra lá de sinistra. É um filme hipnótico, devido não só à natureza labiríntica de sua história mas também ao seu visual, que parece imitar a mente alucinante de seu protagonista.

6- AMOR À FLOR DA PELE

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Os filmes de Wong Kar-Wai são reconhecíveis  já nas primeiras cenas. Acredito que só Almodóvar hoje tenha uma marca visual tão forte em sua filmografia. No caso do cinema de Wong Kar-Wai, grande parte de sua beleza vem da contruibuição do diretor com Christopher Doyle, provavelmente o mais talentoso diretor de fotografia da atualidade. Nos filmes de Kar-Wai a luz parece sair dos personagens para o ambiente – e no caso de AMOR À FLOR DA PELE, é o vermelho faiscante que envolve Tony Leung e Maggie Cheung que dá o tom da produção. A história é orgânica, pulsante, em especial porque as imagens do filme (por mais que às vezes não tenham um sentido óbvio) são a representação dos sentimentos dos protagonistas.

5- O ASSASSINATO DE JESSE JAMES

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O diretor de fotografia Roger Deakins é famoso por sua colaboração com os Irmãos Coen (FARGO e O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ em especial são belíssimos visualmente). No entanto, o grande trabalho de Deakins é no subestimado O ASSASSINATO DE JESSE JAMES. O filme deve muito ao cinema de Terrence Malick, com seu desenvolvimento lento e forte simbolismo. Grande parte da força mítica que envolve Jesse James (Brad Pitt) e sua gangue é a forma com que Deakins decide iluminá-los. A cena que me fez dar conta de estar assistindo a um dos filmes mais bonitos dos últimos tempos foi a do assalto ao trem: a luz, as sombras, a fumaça e o movimento da câmera realça o aspecto ‘larger than life’ dos criminosos. Um filme que merece ser mais assistido.

4- DAYS OF HEAVEN

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Falando em Terrence Malick, nenhuma lista de filmes mais belos do cinema é completa sem DAYS OF HEAVEN, de 1978. É impressionante que mesmo quem assistir ao filme sem som, vai entender perfeitamente não só o enredo mas também suas nuances. Todas as cenas do filme (exceto uma) ocorrem ou no período do nascer do sol, ou no pôr-do-sol, o que torna a fotografia de DAYS OF HEAVEN única na história do cinema – não há filme que use a luz de forma mais brilhante. A exceção é a cena em que a fazenda é atacada por uma praga de gafanhotos, que ocorre à noite – e como esse é um filme de Malick, é extremamente simbólica. Diz a lenda que o lendário diretor de fotografia espanhol Nestor Almendros estava ficando cego ao fazer o filme, e grande parte das cenas foi rodada por seu assistente. [P.S.: Não sei como foi traduzido o título do filme em português]

3- BARRY LYNDON

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Desafio: dar pausa em qualquer cena de BARRY LYNDON e não ser contemplado com um quadro clássico que poderia estar perfeitamente em qualquer grande museu. Stanley Kubrick e seu grande diretor de fotografia, John Alcott, fizeram do filme uma verdadeira experiência, fazendo com que o espectador mergulhasse da forma mais genuína possível na Inglaterra do século XVIII. Para isso chegaram a extremos lendários: grande parte do figurino (cortesia da papisa Milena Canonero) era original da época; o filme foi quase que todo filmado com luz natural e em locação; e num caso que já faz parte da história do cinema, as sublimes cenas à luz de velas foram realmente iluminadas pelas velas em questão, já que Kubrick e Alcott utilizaram lentes especiais desenvolvidas pela NASA. Para que as imagens saíssem perfeitas, os atores tinha de se movimentar mais lentamente que o normal, daí a impressão que nessas cenas o filme segue um ritmo próprio. Talvez seja o filme histórico definitivo.

2- A ÉPOCA DA INOCÊNCIA/O AVIADOR

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Aqui vou roubar um pouquinho, colocando dois filmes no segundo lugar. Faço isso porque esses dois filmes de Martin Scorsese talvez sejam  o melhor exemplo no cinema americano atual de como colocar a imagem (que nesse caso são de uma beleza singular) a favor da narrativa. No primeiro filme, com fotografia do mestre Michael Ballhaus (talvez o maior diretor de fotografia americano), Scorsese conta grande parte da história através das cores (das flores, dos vestidos de Michelle Pfeiffer e Winona Ryder, e até mesmo da tela que às vezes é inundada por um vermelho ou amarelo). O desenvolvimento dos personagens é seguido de perto pelas cores que os envolvem, e os ângulos usados por Scorsese são a prova de um trabalho de mestre: duas cenas de tirar o fôlego são Michelle Pfeiffer na ópera passando o leque pelos espectadores, e quando depois ela sobe as escadas, vista de cima, usando um faiscante vestido vermelho.

No caso de O AVIADOR, a fotografia ficou a cargo de Robert Richardson (cujo trabalho em KILL BILL por pouco não entra nessa lista). A decisão de Scorsese fazer com que cada ano da história tivesse o visual de um filme produzido no mesmo ano é ge-ni-al. O filme começa como se feito em duas cores, depois passa a technicolor, até se aproximar ao estilo de filmes recentes. A cena em que Leonardo DiCaprio e Cate Blanchett passeaim pelo campo de golfe é especialmente criativa, com o verde da grama quase azul, devido à qualidade da película das produções daquele período. Como em várias de suas obras, Scorsese também está discutindo o cinema não só no conteúdo (com a história dos filmes produzidos por Howard Hughes) mas também na forma.

1- HERÓI

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Em termos de visual arrebatador aliado ao caráter multi-facetado da narrativa, HERÓI é insuperável. O filme na verdade tem uma única história contada sob diferentes pontos de vista, e sua grande ‘sacação’ é fazer cada ponto de vista filmado de uma cor. É uma festa para os olhos, cortesia novamente de Christopher Doyle, aqui trabalhando com Zhang Yimou. As cenas de ação tem um elemento lírico que só filmes asiáticos conseguem – e eu, como sou fã de “filmes com chinês voando”, babo toda a vez que assisto. Quando a gente acha que viu a cena mais linda do filme, vem outra ainda mais bonita, e cada uma com uma  locação diferente (de um lago plácido a montanhas rochosas, passando por árvores outonais). Seja verde, vermelha, azul, branca ou negra, cada sequência de HERÓI consegue invidualmente entrar na lista das mais belas do cinema.

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14 respostas a Top 10 – Filmes mais bonitos do cinema

  1. Lucas B. diz:

    Muito merecido o primeiro lugar. Herói é belíssimo, as sequencias usando cores diferentes são divinas. Sem contar o modo como as lutas parecem mais uma dança do que algo relacionado a esgrima e artes marciais.

    Outro que acho muito bonito, e faltou na sua lista, é Maria Antonieta, que apesar de tudo, tem um visual envolvendo figurino e cenário de cair o queixo.

    • Anderson diz:

      Lucas eu tbm sou fã de MARIA ANTONIETA e acho um filme belíssimo. Tbm cogitei colocar na lista. Até pq os figurinos são da Milena Canonero, a mesma de BARRY LYNDON.

      Gisele, já estou à procura.😉

  2. Gisele diz:

    vc viu “O sorgo vermelho”? é dica da Tati, que trabalha cá comigo.

  3. Morro de vontade de conhecer a filmografia do Kar-Wai, pretendo fazer isso em breve. Adorei a lista(pra mim o céu de Days of Heaven é o mais lindo do cinema). Incluiria 2001 e Zodíaco.

  4. Putz, quero muito ver Herói, que realmente parece ter imagens muito belas!

    Abs!

  5. jeff diz:

    Quando eu vi o tema do top – muito bom por sinal, um dia devo aderir a ideia xD -, pensei que se não tivesse Barry Lyndon, eu não levaria sua lista a sério. hehe Esse sem dúvida não podia faltar. Apesar que excluir 2001 também é bem complicado. Se fosse uma lista minha, eu roubaria igual a sua segunda posição. xD
    A fotografia de Jesse James é mesmo perfeita, inclusive a cena que você citou foi uma das mais bonitas daquele ano – senão a mais -, mas do Roger Deakins eu prefiro O Homem que não estava lá, um dos filmes preto e branco mais lindos que assisti. P&B lindão também é Hiroshima Meu Amor, talvez entraria numa lista minha.
    Ahhh, muito difícil escolher só 10. Mas Herói, apesar de não gostar do filme em si, é muito justo entrar. Só Um Corpo que Cai que não vejo grande coisa. E alguns eu não assisti, mas só pela imagem fiquei com mais vontade.

    []s!

  6. Muito bom ver “O Assassinato de Jesse James” nessa lista, acho a fotografia do filme coisa de outro mundo. Não vi a maioria dos filmes (tirando esses dois primeiros), mas a seleção ficou ótima!

  7. Concordo com muitas das tuas escolhas.

    ASSASSÍNIO DE JESSE JAMES, HERÓI, DIAS DO PARAÍSO, O AVIADOR

    Eu acrescentaria THE FOUNTAIN, O PIANO, O SENHOR DOS ANÉIS, AMÉLIE ou UM LONGO DOMINGO DE NOIVADO, por exemplo. KINGDOM OF HEAVEN seria também uma excelente escolha.

    Excelente iniciativa, parabéns.

    Cumps.
    Filipe Assis
    CINEROAD – A Estrada do Cinema

  8. interessante essa lista. e bem democrática tb. Só acho que faltou alguma coisa feita pelo Sven Nykvist. abs.

    • Anderson diz:

      Charles: Pois é, mas meu conhecimento de Bergman não é tão vasto. Preciso melhorar!

      Filipe: Quase que coloquei O Piano na lista. Amo esse filme, além de ser lindo tbm.

      Vinicius: O ASSASSINATO DE JESSE JAMES é um filme meio esquecido hj. Mas acho q em breve vai entrar nas listas de melhores da década.

  9. Pingback: Rosebud é o Trenó! | O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó!

  10. nicholas diz:

    Days of Heaven é Cinzas no Paraíso.

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