Revendo "Reencarnação"

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Nessas minhas férias, estou aproveitando para rever vários filmes que assisti há bastante tempo: de clássicos (BARRY LYNDON, que eu amo) até comédias pop (TODO MUNDO QUASE MORTO). Felizmente, também estou tendo a oportunidade de dar uma segunda chance a filmes que vi no cinema há alguns anos e que, quando as luzes da sala se acenderam, não sabia se tinha amado ou odiado o que tinha acabado de assistir. De todos os filmes dos últimos anos, talvez o que mais tenha me dado essa impressão é REENCARNAÇÃO, de Jonathan Glazer.

Lembro de pensar ao fim daquela sessão em 2005: “Que filme foi esse que eu vi?” REENCARNAÇÃO ficou em minha cabeça por muito tempo, e acredito que a razão de muitas pessoas não gostarem dele é por ser tão enigmático e perturbador. O filme é ao mesmo desconfortante e refinado, como se envolvesse toda a problemática um tanto gótica e doentia da história  com uma roupagem de requinte estético. A premissa de REENCARNAÇÃO (garoto de 10 anos se apresenta para uma mulher como a reencarnação de seu falecido marido) começa como estapafúrdia, fica enigmática, se torna sinistra e ao fim se mostra doentia. Mesmo a explicação que o filme eventualmente dá para a situação é altamente ambígua, porque as escolhas visuais do diretor Jonathan Glazer nunca  são fáceis.

Há algo de extremamente surreal em REENCARNAÇÃO, talvez por seu roteiro ser de autoria de Jean-Claude Carriére, colaborador de longa data de Buñuel. Mas o visual também realça o elemento fantástico da história, que sempre fica no limiar entre o sobrenatural e o romântico (o que também cria a atmosfera desconfortante que já mencionei). Jonathan Glazer usa e abusa das tintas kubrickianas (o que não é surpresa para quem já conhece sua carreira em videoclipe), especialmente nos close-ups prolongados e uso da música clássica.

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Nicole Kidman, em notável atuação, combina perfeitamente com esse estilo (logo ela, que fez o último filme de Kubrick). Sem ela, seria muito fácil considerar REENCARNAÇÃO um exercício em bizarrice, mas sua expressividade é tão genuína que acaba desarmando até o espectador mais racional. Em uma das cenas mais impressionantes do cinema recente, a personagem de Kidman vai à ópera e, por mais de dois minutos ininterruptos, vemos um close de seu rosto e da avalanche de emoções que passam por ele. É uma estratégia ousada, mas cujo efeito é inesquecível.

Mas REENCARNAÇÃO tem um elenco muito bom, a começar pelo jovem Cameron Bright, que interpreta o menino que diz ser o marido de Kidman. Seu rosto melancólico combina (assim como o cabelo de Kidman) com uma atmosfera O BEBÊ DE ROSEMARY que ronda a história do filme. A surpresa fica por conta de Anne Heche, em pequena mas crucial interpretação. Depois da grande cena em que ela revela um dos grandes segredos do enredo, dá vontade de saber mais sobre a personagem, seus erros e seus amores.

Na época, o filme foi muito comentado por algumas cenas tidas como polêmicas, em especial a que em Nicole Kidman e o garoto estão na banheira. Essa é uma das várias conotações sexuais que o filme coloca. E como elas são com um menino de 10 anos, é claro que isso pode chocar. Mas nada é mostrado ou mesmo realizado, tudo é sugerido – e acredito que desses momentos moralmente questionáveis de REENCARNAÇÃO é que surge um grande filme. É uma obra corajosa e de visão, cuja história lúgubre (realçada pela espetacular trilha de Alexandre Desplat) porém imersa na luz amarela da alta-sociedade nova-iorquina (a fotografia de Harry Savides é um achado) ilustra a própria peculiaridade do amor e suas desilusões.

A cena final é tão assustadora e bela (como já cansei de falar aqui no blog, adoro cenas de mar em cinema) que ao mesmo tempo que dá um outro ponto de vista para todo o enredo de REENCARNAÇÃO, amplia suas possibilidades. Não é um filme fácil, mas extremamente gratificante para quem se deixar levar por suas nuances.

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8 respostas a Revendo "Reencarnação"

  1. Valeria diz:

    Olha, adorei quando vi e me deu até vontade de ver de novo… Me lembro de sair de Senhor dos Anéis ( I ) e ouvir comentários fora da sala de cinema, no trabalho etc sobre como as pessoas se sentiam mal com o filme. Você acertou na mosca: incomoda. O mal incomoda, o metafísico incomoda, tudo aquilo que dizemos conscientemente que está legal mas na hora que bate na tela maior que a TV incomoda: a projeção do medo de nossos medos em dolby stereo e wild screen . Vou ver de novo, valeu.

  2. jeff diz:

    Eu assisti Reencarnação há muito tempo e seu texto me deixou com uma vontade ABSURDA de rever. Eu me lembro que na época gostei muito, metade do mundo criticou o filme mas eu não entendi o motivo. O título sugere um suspense né, acho que muita gente esperou uma coisa que não era, um drama dos bons. Três cenas eu não esqueço até hoje: o início [a corrida], essa do teatro que você comentou e a que o menino sai correndo e apanha [algo do tipo].
    Vou rever, vou rever.

    []s!

    • Anderson diz:

      Jeff: Pois é, esse filme tem umas cenas mto marcantes. E tava com ele na cabeça esses dias, precisava rever. E realmente acho q o marketing da época foi mal-feito.

      Vinicius: Reveja sim, vc vai gostar mais!

  3. “Reencarnação” é um dos filmes que mais dividiram opiniões nos últimos, já que muitos consideram uma obra-prima – e outros, uma bomba. Acho que tem alguns pontos positivos, mas no geral não me encantou – mas preciso rever…

  4. Flavio diz:

    A vocês que gostaram e entenderam o filme, eu gostaria de tirar uma dúvida, pois eu não entendi o final:
    .
    ATENÇÃO: SPOILER A SEGUIR: SE VOCÊ NÃO VIU O FILME, NÃO LEIA.
    .
    .
    .
    Pois é, o garoto no final confessa não ser o marido dela. Ok, mas como ele sabia de tantas informações cruciais? Como ele convenceu tão bem não só ela, mas todos os espectadores? De onde ele acessou informações sobre ela e o marido?

  5. Pingback: Rosebud é o Trenó! | O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó!

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