TOP 10 – OS FILMES DA MINHA VIDA

Esta lista representa mais do que os meus filmes preferidos – são os filmes da minha vida, aqueles que mudaram a minha própria atitude com relação ao cinema. Estou revendo todos eles, para logo depois colocar minhas impressões aqui.

9- MOULIN ROUGE

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A EXPERIÊNCIA:

Fui ao cinema com uma amiga minha, no dia da estréia em uma sessão vazia no meio da tarde. Já tinha lido várias críticas e estava bastante empolgado com o que tinha visto e lido sobre o filme. Naquela sexta, foi capa do Caderno de Cultura do JB com uma crítica mais que positiva (lembro que chegava a comparar os primeiros 30 minutos do filme ao início de O RESGATE DO SOLDADO RYAN em termos de impacto).

Eu e minha amiga ficamos maravilhados. Aquelas cortinas se abrindo com a fanfarra da 20th Century Fox e o maestro pequenino na parte baixa da tela foi o suficiente pra me entregar totalmente. Está aí um filme que, visto no cinema, proporciona uma experiência visceral.

Quando o filme acabou, minha amiga e eu nos olhamos e nem dissemos nada – as lágrimas dela e a minha cara de estupefato diziam tudo. Ao nos recompormos, perguntei pra ela: “Vamos tentar assistir de novo ficando sentados aqui?” Na hora ela topou. Depois de um tempo, pessoas da próxima sessão começaram a chegar. Um funcionário do cinema veio falar com a gente e quando eu ia começar a implorar pra ele deixar a ficar ali, ele disse: “Vocês chegaram no meio do filme, né? Podem ficar aí pra ver o que vocês perderam.” Realmente, o Deus Pop estava do nosso lado e tive o prazer de assistir ao filme mais uma vez. Depois, ainda iria no cinema mais duas vezes rever o que se tornou um dos filmes da minha vida.

O FILME:

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Pode-se falar tudo de Baz Lurhmann, menos que ele não é um diretor de visão. Os detratores dizem que sua estética é cafona, pós-MTV, editada pra pessoas com déficit de atenção, exagerada, artificial. Mesmo assim, nem eles podem dizer que Lurhmann não tem uma estética própria, o que é mais do que pode se afirmar de 90% dos diretores em atividade no cinema norte-americano hoje. Em seus outros filmes, Luhrmann já mostrava sua verve operática acompanhada de uma perspectiva pop: foi assim no ótimo VEM DANÇAR COMIGO e em seu exercício kitsch sobre Shakespeare: ROMEU + JULIETA. Só que em MOULIN ROUGE a combinação perfeita entre seu estilo próprio com as tendências da arte contemporânea resultaram num espetáculo incomparável.

Nos últimos dez anos, é notória a tendência de alguns filmes hollywoodianos seguirem a cartilha do pensamento pós-moderno – MATRIX, CLUBE DA LUTA e CIDADE DOS SONHOS são talvez os melhores exemplos, além é claro de toda a filmografia de Quentin Tarantino. No entanto, pra mim MOULIN ROUGE é o filme que, de todos eles, tenha a tarefa mais difícil, porque além de usar várias técnicas do pós-modernismo, ainda tem de contar uma história de amor. E a aí está o grande desafio: como apresentar o tema mais manjado de todos – a atração de um homem e de uma mulher – usado elementos narrativos da contemporaneidade, cujo modus operandi é o do cinismo e da ironia?

É desse aparente contrasenso que Baz Luhrmann cria o tecido de todo o enredo de MOULIN ROUGE. Uma das marcas de um grande diretor é sua habilidade de, contando a história particular de seu filme, também ser capaz de remeter à própria experiência cinematográfica. Foi isso que Hitchcock fez com JANELA INDISCRETA, Cronenberg fez com MARCAS DA VIOLÊNCIA e Luhrmann faz com MOULIN ROUGE. Assistir ao filme é mais do que ser imerso no mundo particular da Paris do final do século XIX, mas é pensar no próprio cinema como forma de entretenimento. Nada por ser mais auto-reflexivo do que isso – afinal, o filme não abre e fecha com aquelas imensas cortinas vermelhas à toa.

Algo que sempre me surpreende toda a vez que assisto a MOULIN ROUGE é a sua capacidade de brincar com a narrativa de maneira complexa, de forma que sempre há a possibilidade de se encontrar algo novo. Luhrmann constrói uma peça (“Spectacular Spectacular”) dentro de um livro (que está sendo narrado/escrito por Christian) dentro de um filme (o próprio MOULIN ROUGE) que pode ou não estar dentro de um grande espetáculo musical (as cortinas novamente). Ou seja, o próprio papel do espectador é colocado em cheque, já que suas funções como pagante de cinema se multiplicam. É o meta do meta do meta, em que cada um desses universos se relacionam de forma macro e micro.

De todas essas relações entre peça/filme/livro, a que mais me impressiona é aquela arquitetada  na cena do “Ensaio de Emergência”, quando Satine, Christian, Ziedler, Toulouse-Lautrec e cia. apresentam a história de “Spectacular Spectacular para o Duque. Em menos de 10 minutos, essa cena consegue tudo que Michel Gondry não fez no REBOBINE, POR FAVOR inteiro. Na verdade, o que Baz Luhrmann realiza aqui é contar a história de MOULIN ROUGE completa, desde os grandes acontecimentos (o amor proibido, a morte da protagonista) até os menores detalhes (a briga entre Toulouse e o capanga do duque ao final, por exemplo). Além disso, a cena é divertidamente irônica com relação ao que os artistas têm de passar para conseguir algum capital para realizar suas produções. Os coitados têm de fazer malabarismo e carregar o patrocinador no colo – literalmente!

Outro fator que chama atenção em MOULIN ROUGE é o amontoado de referências que o filme articula para contar a sua história. Na história do cinema, talvez só PULP FICTION tenha usado de tanta bricolagem para montar não só sua narrativa, mas também seu visual. Assim, como em qualquer obra surgida na cultura pós-moderna, o prazer do espectador é diretamente proporcional ao conhecimento prévio que ele tem de diferentes artes e mídias. Contando com isso, Luhrmann pinça de “La Bohéme” e dos romances do século XIX elementos pra sua história de amor, se apropria da imagem de grandes divas da música e do cinema para construir sua própria protagonista, rouba de Bollywood o visual para criar sua ‘meta-peça’ etc.

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Contudo, talvez o grande (e mais genial) ‘roubo’ de Baz Luhrmann tenha sido o das referências musicais em MOULIN ROUGE. O que faz desse filme um dos musicais definitivos é a sua imensa habilidade de articular, sem nenhum momento de hesitação, elementos da ópera (a já citada “La Bohéme”), filmes clássicos pertencentes ao gênero (OS HOMENS PREFEREM AS LOIRAS, A NOVIÇA REBELDE) e verdadeiros hinos do pop/rock (“Show Must Go On”, “Your Song”, “Smells Like Teen Spirit”). Chama a atenção a preferência por três canções de David Bowie (“Heroes”, “Diamond Dogs” e sua versão de “Nature Boy”), mas acredito que isso seja deliciosamente proposital: o cantor seria a representação (nos anos 70) dos ideais de liberdade, beleza, verdade e amor da boemia parisiense do final do século XIX. As performances das cenas musicais são extremamente criativas e bem elaboradas, do pastiche cômico de “Like a Virgin” ao trágico grandiloquente do inesquecível “El Tango de Roxanne”. Muito se fala da edição acelerada que não dá tempo de se digerir nada, mas acredito que isso dá ao filme um sentido de urgência que condiz com a estética almejada por Luhrmann. MOULIN ROUGE é menos uma experiência contemplativa do que sensorial.

Adoro todas as interpretações: Richard Roxburgh e sua meticulosa neurose para o Duque, John Leguizamo conseguindo (assim como o próprio filme) passar do drama para a comédia em segundos (só é pena que apareça tão pouco), Jim Broadbent e sua divina caricatura circense. Nicole Kidman realmente tem o papel de sua vida aqui: a câmera, a luz, os figurinos, tudo é cuidadosamente construído para realçar sua condição de diva. Ela é Marilyn, Garbo, Marlene, Madonna – e desse bric-a-brac das figuras femininas mais famosas do século XX, ela espertamente constrói sua interpretação, uma das mais subestimadas (e sensuais)  do cinema recente. Ewan McGregor, que facilmente poderia ser engolido por Kidman e pelo visual do filme, consegue aquela mistura de carisma, sex appeal e inocência  das grandes estrelas – e que voz!

MOULIN ROUGE tem fãs ardorosos e inimigos mortais, e acho curioso como os dois grupos o amam e o odeiam geralmente pelos mesmos motivos. O filme de Baz Luhrmann pega o gênero musical e o eleva à décima potência. É interessante que, comparado com CHICAGO (outra produção musical contemporânea), MOULIN ROUGE tem um estilo bem diferente. Enquanto o filme de Rob Marshall tem um tom geralmente realista para apresentar as sequências de música e dança só nas cenas de sonho, MOULIN ROUGE é todo uma grande sequência de sonho, com seus argentinos narcolépticos, sets em forma de elefante e lua de Meliés que canta ópera. E, sinceramente, é um sonho que sempre me deixa feliz.

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6 respostas a TOP 10 – OS FILMES DA MINHA VIDA

  1. Moulin Rouge mudou também toda minha concepção sobre cinema-musical. Eu sou apaixonado por musicais da broadway, sempre que uma adaptação para as telas surgia eu corria e vibrava. Porém Moulin Rouge fez um caminho novo até então para mim, satirizando as músicas POP, colocando-as em contextos diferentes, mesclando milhares de músicas numa só… Baz realmente constrói um diálogo sobre perda, ganho e aprendizagem a partir do amor.
    Os números são contagiantes, e uma das minhas cenas favoritas de todos os tempos é Elephant Medley, 16 músicas falando entre si? genial. algo semelhante ao que ele fez essa ano no Oscar com Hugh e Beyoncé, e também ficou magestoso.
    Moulin Rouge é aquele filme que a pessoa assiste, se encanta e realmente passa acreditar no amor.

  2. karine diz:

    Adoro esse filme! Vi 3 vezes no cinema, e muitas mais na tv e em dvd.🙂

    Acho aquela sequencia do Tango de Roxanne genial.

  3. Stephanie diz:

    Moulin Rouge é meu filme preferido, sem dúvida nenhuma! Mue irmão, por outro lado, odiou. E como você disse, eu amo e ele odeia pelo mesmo motivo, porque o filme é super dinâmico, mistura muitas músicas que não teriam nada a ver uma com a outra e tudo mais. O que eu mais gosto nele é justamente ele me fazer perder o fôlego, as cores, a aparência de sonho que ele tem. Não é qualquer um que consegue fazer um filme desses não!
    Já perdi a conta de quantas vezes eu o vi.Mas fiquei com vontade de ver de novo! Pena que não o vi no cinema, deve ser fantástico!

    Parabéns pelo post, perfeito!

    • Anderson diz:

      Stephanie: realmente é o tipo de filme ‘amei ou odiei’. Eu tbm vi várias vezes. Se um dia tiver uma re-edição pra cinema, nao perca! É incacreditável

      Karine: realmente, a parte do Roxanne pra mim é a melhor sequencia musical do filme.

      Luis: O engraçado eh q nem gosto muito de musicais da Broadway. Acho Andrew Lloyd Webber bem chato, aliás. Mas aqueles feitos pra cinema sempre tem algo de legal pra eu gostar.

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