Watchmen – A Versão do Diretor

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Versão cinematográfica  da  mais ambiciosa HQ de todos os tempos, WATCHMEN finalmente chegou às telas pelas mãos de Zack Snyder (de 300) depois de um projeto de longa gestação em Hollywoood, que já tinha passado pelas mãos de Terry Gilliam, Darren Aronofsky e Paul Greengrass. O filme foi um relativo fracasso de público e crítica, especialmente considerando o desejo dos produtores de pegar a esteira de sucesso de O CAVALEIRO DAS TREVAS, com sua visão de ‘filme de super-heróis’ mais realista e violenta.

Mas é difícil compor a natureza quase operática de WATCHMEN para cinema. Por mais grandiosa e multi-facetada que tenha sido a visão de Christopher Nolan em O CAVALEIRO DAS TREVAS, ainda assim era a história de três personagens: Bruce Wayne, Harvey Dent e Coringa. Já em WATCHMEN temos uma séries de personagens (muitas vezes de duas gerações de super-heróis), misturados a eventos políticos e militares mergulhados numa história alternativa de um período especialmente datado (a Guerra Fria). É uma tarefa hercúlea que  Zack Snyder corajosamente se propôs a realizar. Tinha muito medo do filme se tornar uma outra tragédia como 300, com seu ‘cinema de wallpaper do Windows’ e seu conservadorismo estúpido. Felizmente, WATCHMEN não chega aos níveis de ruindade daqueles espartanos com sua barriga tanquinho. Porém, mesmo tendo alguns bons momentos, passa longe de ser um grande filme.

Primeiramente, há o aspecto de transposição da narrativa em HQ para a narrativa cinematográfica. Em termos visuais, Snyder é extremamente fiel à história de Alan Moore/Dave Gibbons – a HQ parece ter servido de storyboard para todas as cenas. O curioso é que mesmo assim o diretor não apelou para os milhões de telas azuis como em seu filme anterior. Em segundo lugar, alguns personagens tiveram um perfeita passagem para a tela grande, sendo o destaque óbvio Dr. Manhattan – com voz e rosto de Billy Crudup, ele é mais uma prova de até onde a mescla entre interpretação e o CGI podem chegar. A produção não esconde a sua grandiosidade, com sets e efeitos especiais complicados. Praticamente nada é cortado (exceto o “Contos do Cargueiro Negro”, que virou um outro filme) e as implicações políticas, metafísicas e pós-modernas são mantidas. Contudo, essa fidelidade exagerada acaba prejudicando alguns momentos-chave de WATCHMEN. Duas chamam especial atenção: o flashback contando o passado do Dr. Manhattan e a conclusão da história.

Quando a HQ de WATCHMEN foi lançada serialmente, houve uma edição especialmente dedicada a contar a história da infância de Jon Osterman e do acidente que levou o então renomado físico a se tornar o Dr. Manhattan. Isso tudo ocorria num flashback com Manhattan em Marte, misturando passado e presente num imenso contínuo que retratava como o personagem percebe o tempo. Talvez seja  a melhor HQ de todos os tempos –  instigante, um tanto perturbadora e profundamente triste. É difícil tratar essa passagem no filme, mas Snyder tenta novamente sendo totalmente fiel à HQ. O resultado é um flashback um tanto confuso e ao mesmo tempo trivial, que acaba por não explicar a importância da passagem do personagem por Marte.

Porém, o momento realmente ruim do filme é o seu final. Não vou dar nenhum spoiler, mas muito se foi falado que o diretor mudou um elemento chave da conclusão da história. Realmente, mudou para melhor – no filme teria ficado ridículo. Mas nem isso deixa o final com menos cara de vergonha alheia.  Tudo parece se resumir a uma história de Scooby-Doo, e vamos combinar que o figurino de Matthew Goode como Ozymandias não ajuda muito. Para uma história tão complexa quanto WATCHMEN, terminar como uma histórial policial da pior espécie é uma imensa decepção, e no momento mais importante do filme Zack Snyder não consegue dar o peso dramático devido.

As atuações em geral são boas, em especial Jackie Earle Haley como Rorschach (tirando essa voz rouca à la Christian Bale como Batman, que já está irritando), Patrick Wilson como o Night Owl II e Carla Gugino como a primeira Silk Spectre. Zack Snyder não fez concessões com relação à brutalidade da HQ, fazendo desse o filme mais sangrento desde SIN CITY. No entanto, a violência em meio aquelas roupas de super-heróis acaba sendo um grande pastiche, e nunca parece real o suficiente para o espectador.

Em resumo, WATCHMEN não é a tragédia que poderia ter sido, mas nem de perto é a obra-prima que os fãs da HQ esperavam.

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9 respostas a Watchmen – A Versão do Diretor

  1. Vi a versão que foi ao cinema mesmo e acho que gostei mais do que você. O problema é que ficou muito aquém daquilo que imaginávamos para o filme, tirando o visual que eu achei espetacular. E o final foi a pior parte na minha opinião.

  2. Romulo diz:

    1 – Pra que adaptar uma obra cujo melhor trabalho consistia em enfiar os super heróis em um mundo real se, na adaptação, esse trabalho é destruído com socos que atravessam paredes, pulos sobrenaturais e câmera lenta e lutas coreografadas demais?

    2 – pra que adaptar uma obra e diluir TODOS os personagens e situações?

    3 – final novo: até um pouco mais orgânico (embora o monstro dimensional sirva MUITO bem à problematização do mundo dos uper heróis), mas muito mal-feito.

    watchmen é um filme desnecessário. querendo ou não, cavaleiro das trevas problematizou a existência dos heróis, colocando todo mundo em situações que beiram o mundo real de uma forma muito mais bem trabalhada do que snyder fez.

    sem contar a trilha sonora pavorosa, que só presta em times, they are a-changing e no incidental de philip glass.

    • Anderson diz:

      Romulo: Realmente o uso das músicas do Bob Dylan foi legal. Não sei se o filme chega a ser desnecessário, mas acho q foi faltou um pouco de visão. Dadas as devidas proporções, me lembra o primeiro filme do Harry Potter – aquela fidelidade exacerbada, mas no fundo um filme engessado.

  3. Não sou fã da HQ, até pq não a li por mais que eu a queira, rs… A questão é que eu ADOREI o filme, fiquei maravilhado com as imagens e a história… Gostei mesmo…

    • Anderson diz:

      Mr. Nespoli, realmente gostaria de ter essa percepção de alguém que não conhece a história, talvez até gostasse. Mas engraçado que a reação da maioria das pessoas que não conhecia a HQ ao ver o filme é de confusão, ou não gostar.

  4. Sou fã da HQ e gostei bastante do filme. Mas qual o problema do figurino do Ozymandias? Achei que foi uma mudança bem positiva pois a armadura que ele usa na obra original era muito Cavaleiro do Zodíaco.

  5. Ah, tá. Tinha entendido errado então. ;D

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