Um segundo ato para Michael Jackson

michael-jackson-style1

Para um artista que está sob os holofotes desde a sua infância, parece sintomático que o funeral de Michael Jackson não poderia deixar de ser também uma espécie de show. Um show triste, certamente, não só porque a sua imensa ausência no cenário pop será para sempre sentida, mas também porque num evento criado para, entre outras coisas, celebrar a sua música e dança, não se viu um décimo do talento do rei do pop.

mjsw1mjsw2

Michael Jackson está ligado a minha vida mesmo que eu não queira. Uma das minhas primeira lembranças (se não for a primeira) foi quando assisti muito criança à estréia do clipe de Thriller (clipe favorito #2) no Fantástico. Foi com ele que entendi o que era um videoclipe, o conceito de música e imagem que poderia contar uma história. Mal sabia eu que estava tendo o luxo de ser apresentando ao mundo dos clipes através de um de seus representantes mais revolucionários. Obviamente, o aspecto mais marcante foi todo o conjunto de referências de filmes de terror. Eu, medroso desde sempre, fechei o olho logo no início do clipe quando o cantor vira lobisomem, voltei a ver quando ele caminha com a moça e fechei de novo quando os mortos-vivos saem das tumbas e esgotos. No momento mais famoso do vídeo (a dança dos zumbis), alternava entre olhadelas rápidas para a TV e enterrar a cara no colo da minha mãe, que empolgadíssima dizia “olha, olha”. Morria de medo, mas de vez em quando via um passo de dança legal. O clipe de Thriller é realmente o supra-sumo da idéia básica do terror: ele repele ao mesmo tempo que atrai, e sua mágica até hoje permanece inalterada.

michael-jackson-thriller

Depois veio Bad (clipe favorito #20) e era impossível não acompanhar a Jackson-mania, com todo mundo querendo dançar que nem ele, dar gritinhos que nem ele, se vestir que nem ele, pegar no saco que nem ele. No Show de Calouros do Silvio Santos aos domingos, no Xou da Xuxa de manhã, nos programas de humor – todos imitavam, dublavam e dançavam de acordo com Michael Jackson. Crianças nasciam com o nome de ‘Maicon’. E quem não queria ‘do the Bartman like Michael Jackson’?

Depois de Thriller, vi todas as estréias de seus inesquecíveis videoclipes no Fantástico (que era a MTV do povão). Na fase ‘Dangerous’, nada foi melhor do que ver a estréia de Black or White (que passou com sua explosiva seqüência final, e foi exibido duas vezes no programa), com seu revolucionário ‘morphin’ de rostos – que depois ficou comum, mas cujo efeito no clipe permanece insuperável. Vieram Jam, In The Closet, o maravilhosamente kitsch Remember the Time.  Seu ultimo grande clipe, Scream também foi um evento: um dos mais caros da história, dueto com a irmã Janet e o lançamento do álbum duplo ‘HIStory’ – com um disco de inéditas e outro de grandes sucessos (o lançamento de inúmeras coletâneas seria infelizmente uma constante na parte final da carreira de Michael Jackson).

Os clipes de Michael Jackson são muito importantes não só para mim, mas para toda uma geração – eles são a invenção da indústria pop como a conhecemos, onde a imagem dita a importância do artista e multiplica sua força. Jackson trabalhou com os melhores (David Fincher, Mark Romanek, Steve Barron, Herb Ritts) e foi responsável pela invenção do videoclipe como curta-metragem. Sua decisão de trabalhar com grandes diretores de cinema (John Landis, John Singleton e, obviamente, Martin Scorsese) elevou o estilo a uma nova forma de arte. Para a MTV e a Pepsi, ele foi um veículo para dominação do gosto juvenil da época. Para os negros, ele foi a representação de sua cultura para a massa branca dos subúrbios norte-americanos.

michael-jackson-tiger

O poder da imagem de Michael Jackson era tamanho que acabou por consumir o próprio artista. Nenhuma mudança de aparência na história foi mais estudada, analisada, debochada e criticada. De certa forma, com razão. Mas me impressiona como a idéia de um rapaz negro de cabelo encaracolado para uma quase-mulher branca (caucasiana) de cabelos lisos saiu das páginas de fofoca para os meios acadêmicos, onde se estuda o caso de Michael Jackson como o símbolo máximo do chamado homem ‘pós-humano’ – aquele que manipula o corpo de forma completa através de cirurgias e implantes. À medida que o tempo passava, o cantor se tornava uma imensa caricatura visual que transcendia os limites de gênero, raça, sexualidade e idade: não era homem nem mulher, branco nem negro, gay nem heterossexual, jovem nem velho.

A peculiaridade de Jackson acompanhava sua genialidade como artista – e ambas não poderiam caber em qualquer lugar. Como um Charles Foster Kane pop, ele criou sua própria Xanadu, com o nome do mundo imaginário da história de Peter Pan: ‘Neverland’, a Terra do Nunca. Como o personagem de J.M. Barrie, lá ele exercia o direito de ser a criança que parecia nunca ter deixado de ser, e aí parece estar grande parte do seu fascínio. Talvez por possuir um comportamento aparentemente infantil (sua voz de criança parecia ser elevada à milésima potência quando saída daquele corpo magro com pele alva), a revelação de sua atração sexual por crianças foi ainda mais chocante. Sua inocência não combinava com a de um predador sexual. Seria a infantilidade do cantor um reflexo da constante proximidade de crianças ao seu redor? E quão perigosa era essa proximidade?

É interessante pensar nisso porque nem sendo acusado do crime mais hediondo para a sociedade contemporânea, Michael Jackson perdeu seu fascínio. Hoje, no dia que foi realizado o seu funeral, a estrela do cantor brilhou mais do que nunca. À exceção da série de shows que marcaria seu retorno aos palcos esse ano, o cantor ficou durante muito tempo desaparecido da mídia. Seu último bom disco, o subestimado ‘Dangerous’, foi lançado há 15 anos atrás. Nesse mundo de informações rápidas em que ídolos vão e vem, por que mesmo depois de tão massacrado pela mídia a morte de Michael Jackson causa essa comoção tremenda?

michael-jackson-madonna

Acredito que é porque o cantor ultrapassa os limites de ‘ser importante para a música’ – ele na verdade ‘é’ a música. Seu legado é gigantesco – nas canções, na dança, no vestuário. Ele é mais do que uma influência – é uma espécie de arquétipo de grande artista. Ele se encontra entre os grandes da história do pop/rock porque em seu nome está mais do que um artista – está um conceito. Assim como outros da seleta lista de artistas que mudaram o mundo e são reconhecidos com um simples nome – Elvis, Beatles, Madonna, Bowie – a própria menção de ‘Michael’ já desperta todo um arsenal de símbolos que são parte de uma geração inteira: moonwalking, Billie Jean is not my lover, zumbis dançando, black or white, luvas brancas,  who’s bad.

michael-jackson-final-tour

A famosa frase de F. Scott Fitzgerald – “não há segundo ato na vida americana” – já foi contrariada por Elvis, quando o cantor retornou aos palcos em Las Vegas e retornou ao sucesso, se tornado mito. Michael Jackson estava prestes a ter o seu segundo ato na série de shows em Londres, mas as cortinas se fecharam rápido demais. Mesmo assim, ainda conseguimos ouvi-lo através delas, com sua voz inconfundível e seus passos acrobáticos. Michael Jackson, na verdade, nem precisava de um segundo ato. A narrativa de sua vida é eterna.

Esta entrada foi publicada em Music! Makes the people... com as etiquetas . ligação permanente.

14 respostas a Um segundo ato para Michael Jackson

  1. Excelente texto e bela homenagem àquele que é uma das maiores influências artísticas da atualidade.
    Até agora não falei sobre o assunto, mas você me deixou com vontade de dizer alguma coisa também.
    Me lembro quando era moleca ainda (tinha nove anos) e Thriller foi lançado. Meu irmão imitava todos os passos de Michael e nós éramos os dançarinos acompanhantes.
    Seus clipes também marcaram muito a minha infância/adolescência.
    Inegavelmente, Michael é uma das minhas primeiras referências da música e do audiovisual.
    Sua vida pode ter sido conturbada e ele pode ter sido estranho, mas nada tira dele o brilho de sua arte e a imortalidade de toda a sua obra.

  2. Thiago diz:

    Ótimo texto, meu amigo. Desde o dia que o Michael morreu fiquei esperando suas palavras. Mas preciso insistir : Michael foi acusado de pedofilia mas nunca foi provado nada. Do jeito que você escreveu a suspeita virou condenação, e como ele mesmo disse em entrevista a Oprah “não julgue uma pessoa se você não a conhece pessoalmente”

  3. Nossa, excelente texto! O que você escreveu foi perfeito:

    “Michael Jackson, na verdade, nem precisava de um segundo ato. A narrativa de sua vida é eterna.”

    E tivemos o privilégio de fazer parte desta narrativa.

    Abs

  4. valeria diz:

    Quem dera este fosse o último e o mais autêntico neucrológio de Michael Jackson. Conturbado em vida, perturbado em morte. Cada um de nós terá o “seu” Michael, mas eu prefiro pensar no Off the Wall e que, não importa a religião, ele tenha mais paz agora do que teve em vida…

  5. valeria diz:

    Incondicional… taí a palavra que me faltou para o meu amor por Michael Jackson.

  6. valeria diz:

    Acho que o seu amor por ele é incondicional também, estou certa?

  7. valeria diz:

    Acho que você sente o mesmo afeto incondicional e desinteressado que eu e todos que e respondemos, não?

  8. valeria diz:

    Desculpe, mas como uma autêntica ludita tive o meu segundo comentário rejeitado por ser “repetitivo”. E há quem diga que isso é ficção científica: ter os seus comentários semantica e sintaticamente comentados e rejeitos e logo depois aceitos por um software ou ou seja lá como isso se chame…

  9. Wally diz:

    Belo post. Acho Jackson tão incompreendido…

  10. JA SABEM A CAUSA DA MORTE DE MICHAEL JACKSON?

  11. Lolly diz:

    Ouço as músicas de Mike todos os dias e até hoje tenho esperança de que ele esteja escondido em algum lugar…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s