SYNECDOCHE NEW YORK

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Pode-se falar qualquer coisa de Charlie Kaufman, menos que o cara não tem ambição. Ele já colocou espectadores na cabeça de John Malkovich (QUERO SER JOHN MALKOVICH), já criou um irmão gêmeo que o ajudou a escrever seu próprio roteiro (ADAPTAÇÃO) e já falou das desventuras de querer apagar alguém de sua memória (BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS). Esses três roteiros, que são os seus mais famosos, casaram perfeitamente com o estilo pop e visionário dos diretores que lhes deram vida: Spike Jonze e Michel Gondry. Kaufman, no entanto, foi esperto o suficiente para dirigir ele próprio o seu roteiro mais grandioso e pessoal, que rendeu o melhor filme do ano passado (lançado nos Estados Unidos) e um dos melhores da década: trata-se de SYNECDOCHE, NEW YORK.

Nesse estudo sobre os limites da arte e da morte, acompanhamos a vida de Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman), um diretor de teatro que acredita estar morrendo. Ele é casado com uma pintora conceituada (Catherine Keener) com quem tem sérios problemas conjugais. Quando ela parte para Berlim juntamente com a filha do casal, Cotard é cortejado por uma assistente de bilheteria de teatro (Samantha Morton) e pela atriz principal da versão de “A Morte do Caixeiro Viajante” que está dirigindo (Michelle Williams). Cada vez mais desiludido e certo da morte iminente, ele resolve usar o dinheiro que recebe de uma fundação artística para realizar uma peça grandiosa, que pretende retratar a vida ‘de forma brutal’. A questão principal da peça é que ela é uma cópia em menor escala da cidade de Nova York, com atores tentando emular de forma fiel a vida real.

Já em seu título, SYNECDOCHE, NEW YORK insinua sua pretensão artística mas também sua peculiar ironia. ‘Sinédoque’ é aquela figura de linguagem geralmente associada à parte pelo todo, próxima da metonímia (como quando dizemos ‘O brasileiro é malandro’, mas na verdade estamos falando de todos os brasileiros). A brincadeira linguística aqui também tem a ver com Schenectady, cidade do estado de Nova York onde vive o protagonista no início do filme. A sinédoque mais direta do filme é a da gigantesca peça montada por Cotard, num armazém de tamanho colossal que reproduz, de certa forma, toda a cidade de Nova York. A outra sinédoque, essa mais sutil porém mais poderosa, é a de que Cotard é uma pequena parte de todos nós, e todos somos ele – aquela criatura frágil e cheia de idéias, em busca de amor e de sonhos, mas que ao final o único encontro certo que possui é com a morte.

Charlie Kaufman não está para brincadeiras aqui, e não é à toa que SYNECDOCHE, NEW YORK cita de Shakespeare a Harold Pinter, de Kafka a Arthur Miller – as ambições do roteirista/diretor em representar a vida e a morte através da arte passa pelos mesmos propósitos dos mestres da literatura e do teatro. No entanto, ele não joga esses nome em vão, e nem quer apenas parecer culto – suas intenções aqui são de produzir uma estrutura intrincada que quer ser a própria representação da existência. É um filme de símbolos (não é à toa que Cotard pensa em chamar sua peça originalmente de ‘Simulacro’) que nem sempre remetem a um sentido original – ou, se o faz, é de forma comicamente perturbadora. Os melhores exemplos disso são a casa onde vive Hazel (Samantha Morton), que está eternamente em chamas mas mesmo assim habitada; ou o mundo fora do armazém onde se encena a peça de Cotard, que parece estar passando por uma espécie de guerra química.

Philip Seymour Hoffman como Cotard (e não haveria melhor nome para um personagem tão perturbado pela idéia da morte) tem a melhor interpretação de sua carreira, o que não é pouca coisa. Especialmente considerando que a história compreende um período de décadas, é fascinante ver como o personagem passa de um estado de desilusão, depois furor artístico, e finalmente placidez, diante da condição de ter se tornado uma criação de sua própria obsessão. O elenco feminino que orbita em torno de Hoffman é algo de sonhos: além da sempre brilhante Samantha Morton, Catherine Keener e Michelle Williams, o filme ainda conta com Emily Watson, Jennifer Jason Leigh e Dianne Wiest (divina, com um personagem-chave para interpretar as diferentes camadas da história).

Há muito tempo não via um filme que me fizesse pensar nele por semanas, e só escrevo esse texto depois de ver SYNECDOCHE, NEW YORK mais de uma vez,  já que sua riqueza temática e o talento de sua realização é um exemplo de vigor raro no cinema americano atual. É uma obra sobre grandes temas, mas cuja sensibilidade acaba fazendo das minhas (e também das suas) angústias e desejos a matéria-prima de sua história. Não seriam elas, de certa forma, também a matéria-prima da vida?

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8 respostas a SYNECDOCHE NEW YORK

  1. Isso é um filme que eu nem me atrevo a ver, simplesmente demais pra minha cabeça. Quem sabe daqui alguns anos.

    Valeu o tempo, o texto tá ótimo =D

  2. Eu gostei muito de Sinédoque e acho que para um primeiro filme supera até as espectativas.
    Mas não considero que ele seja perfeito…

    Beijocas

  3. marcus diz:

    Anderson, teu feed não tá mais aparecendo completo. É proposital?

  4. Henrique diz:

    Assisti o filme hoje e estou surpreso. A tempos não via algo tão existencialista no cinema americano, aborda o sofrimento e abusa de cenas simbólicas e indiretas. Até agora não entendo o motivo da casa em chamas. O que isso quer dizer afinal?

    • Anderson diz:

      Henrique, vi o filme 3 vezes numa mesma semana e li tudo q pude. Cada um tem uma interpretação sobre a casa em chamas. Uns dizem ser o símbolo da persistência da personagem da Samantha Morton, uns vieram com um explicação do judaísmo (que tem uma parábola de casa em chamas), outros afirmam ser a representação externa do desejo reprimido dela. Realmente é difícil dizer se tem um significado único e correto.

  5. Pingback: Rosebud é o Trenó! | O blog pra quem sabe que Norman Bates é a mãe, o Bruce Willis está morto no final, Tyler Durden é coisa da sua cabeça e, claro, Rosebud é o trenó!

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