Top 10 – Melhores filmes dos anos 90

Postei aqui recentemente um vídeo de Roger Ebert e Scorsese comentando seus filmes favoritos dos anos 90. Como eu sou cara de pau, também vou postar a minha lista:

10- A FRATERNIDADE É VERMELHA

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Depois da poesia de A LIBERDADE É AZUL e da comédia truncada de A IGUALDADE É BRANCA, Kieszlowski fechou sua trilogia das cores com um espetáculo visual que reflete um quebra-cabeça narrativo milimetricamente arranjado. É uma história sobre o amor, o tempo e o arrependimento que melhora a cada vez a que se assiste.

9- OS IMPERDOÁVEIS

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Só mesmo Clint Eastwood para ter o cacife de fazer um western que subverte as regras do gênero, na verdade um ajuste de contas com todas as narrativas do oeste americano. Acaba sendo um faroeste metafísico, na mesma tradição de RASTROS DE ÓDIO, mas onde a obra-prima de John Ford mostra a humanização do aspecto mais selvagem da existência, Eastwood retrata a selvageria oculta em cada um de seus personagens.

8- BOOGIE NIGHTS

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Épico do pornô e releitura brilhante de TOURO INDOMÁVEL, o filme que colocou Paul Thomas Anderson no mapa é um estudo visceral dos anos 70 e 80 através de figuras atormentadas que por mais que transem loucamente, só querem ser amados. Roller-girl talvez seja uma das grandes personagens da década. A cena em que ela é reconhecida numa limusine pelo homem com quem deveria transar é uma das mais tristes que já vi.

7- O SHOW DE TRUMAN

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Mais do que um filme, um retrato sócio-cultural de toda uma época. O SHOW DE TRUMAN é uma alegoria em alta escala sobre a sociedade do espetáculo, repleto de símbolos  e referências. Reflexo de um mundo que só se define pelo que assiste, é uma representação fiel dos simulacros que invadem o mundo contemporâneo (e deixa MATRIX no chinelo).

6- JFK

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Ainda hoje JFK é criticado pela manipulação de dados históricos e pela insistência em teorias de conspiração exageradas para explicar a morte do presidente Kennedy. Quem dera que todas as obras históricas fossem filmadas com o vigor de Oliver Stone nesse filme. Misturando imagens documentais, encenações e momentos totalmente fictícios, JFK é uma experiência impactante, dando margem para todo tipo de discussão e questionamento. O elenco é quase uma orquestra (Sissy Spacek, Gary Oldman, Joe Pesci, Kevin Bacon, Tommy Lee Jones) e Kevin Costner tem o papel de sua vida.

5- UM SONHO DE LIBERDADE

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Taí o filme que nunca vou esquecer cada vez a que assisti. Filmes sobre amizade, como já falei aqui, acabam comigo – mas esse é muito mais. Morgan Freeman faz aquilo que já fez em zilhões de filmes: o papel arquetípico do ‘magic negro’, com sua narração em off, mas nem isso estraga o prazer da saga da relação de Dufresne com Red durante décadas na prisão Shawshank. É um filme lento, que tem o seu próprio tempo , mas os personagens são tão cativantes, mesmo os mais coadjuvantes, que o resultado é uma experiência vívida e tocante.

4- PULP FICTION

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Não existe no cinema recente filme mais influente, e com ele Quentin Tarantino se confirmou como o diretor norte-americano mais importante a surgir desde a geração ‘New Hollywood’ dos anos 70. Retrato do fim das barreiras entre a alta e a baixa cultura, não se sabe se PULP FICTION é retrato da onipresença do ‘pop’ no mundo contemporâneo ou se é o talento de Tarantino que transforma tudo que toca em arte, de passagens fictícias da Bíblia a injeções de adrenalina no coração.

3- OS BONS COMPANHEIROS

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Quando se achava que depois de O PODEROSO CHEFÃO nenhum outro filme retrataria tão bem a máfia, chega Martin Scorsese e confirma a tradição de filmar uma obra-prima por década. Abordando novamente um de seus temas-assinatura (a ascensão e a queda daqueles que querem mais do que o mundo autoriza), a história de um jovem descendente de irlandeses no meio da máfia italiana nos anos 60/70 ganha tintas épicas, cortesia do genial uso de câmera e da edição espertíssimas. Joe Pesci tem aqui o seu papel mais famoso e as cenas de violências estão entre as mais bem filmadas que eu já vi, mas algo que sempre me chama muita atenção é a atuação de Lorraine Bracco. O momento em que ela abraça Ray Liotta no chão do quarto quando ambos percebem que perderam tudo é o retrato cru do desespero.

2- A ÉPOCA DA INOCÊNCIA

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A obra de Scorsese geralmente caracteriza-se pela violência e pela cultura dos guetos da sociedade nova-iorquina. Por isso, muita gente achou estranho ele filmar A ÉPOCA DA INOCÊNCIA, baseado no romance de Edtih Wharton, já q o filme trata da sociedade da Nova York do século XIX e suas peculiaridades. No entanto, eu posso garantir: não há filme mais violento.

Newland Archer está prestes a se casar com May Welland, a noiva perfeita: pura, linda e rica. No entanto, quando a Condessa Ellen Olenska, prima de May, chega da Europa para morar em NY, o coração de Newland se divide. Este é o mero ponto de partida para que Scorsese faça um dos mais profundos estudos dos costumes já vistos no cinema. A opressão em que vive os personagens é dolorosamente cruel, e o amor da Condessa Olenska por Newland é um crime que pode abalar as mais tradicionais famílias da cidade.

Daniel Day-Lewis como Newland no início do filme parece fora de contexto, mas como grande ator que é, rapidamente nos faz perceber q ele está agindo assim pq o personagem realmente está num lugar onde se sente deslocado, e é aí que se percebe o prazer de uma grande interpretação.

Michelle Pfeiffer nunca esteve mais linda e finalmente tem uma interpretação para calar aqueles q sempre a acusaram de sem-talento. Wynona Ryder como May é um fenômeno, e sua cara de anjo ao início irritante revela muito mais do que poderíamos imaginar.

Dispensável comentar sobre os aspectos técnicos de A ÉPOCA DA INOCÊNCIA porque Scorsese tinha então o melhor time de colaboradores que um diretor poderia sonhar: a editora Thelma Schoonmaker, o maestro Elmer Bernstein e o melhor diretor de fotografia do mundo, Michael Ballhaus. Como bom discípulo de Luchino Visconti, Scorsese é de um requinte único na produção. Famosa ficou a cena do jantar oferecida para a Condessa Olenska, que contou como a ajuda de uma “coreógrafa” para coordernar a posição de cada prato, talher e arranjo sobre a mesa, além da movimentação apropriada dos atores.

Cheio de nuances, o filme é repleto de simbologias e representações. Nenhuma cor de vestido é em vão, nenhuma flor é colocada ao acaso, nenhuma lareira é acesa sem um significado para os personagens.

Pra terminar, um diálogo crucial do filme que define toda a dualidade amor/repressão:

Newland: You gave me my first glimpse of a real life. Then you asked me to go on with the false one. No one can endure that.
Ellen: I’m enduring it.

(Texto escrito no meu antigo blog, em 2004)

1- O SILÊNCIO DOS INOCENTES

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Psicologicamente, é um dos filmes mais profundos já feitos. Em termos de thriller, permanece insuperável. Difícil pensar que Jonathan Demme, um diretor insuspeito para uma história desse tipo, conseguiu conduzir todos os elementos do roteiro com tamanha destreza.  Anthony Hopkins aqui vive a história de amor não-correspondido mais morbidamente linda do cinema, e leva o charme característico dos vilões a outro nível. Jodie Foster tem seu melhor trabalho – sua fragilidade é cada vez mais palpável quanto mais ela tenta parecer forte. A fotografia de Tak Fujimoto merece ser estudada quadro a quadro, sendo representativa do labirinto do inconsciente dos personagens. Cada encontro entre Hannibal e Clarice é apaixonante, por mais que suas consequências sejam um tanto sangrentas. Durante muito tempo foi o meu filme favorito, hoje está no meu top 3. Mas nos anos 90, pra mim continua insuperável.

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14 respostas a Top 10 – Melhores filmes dos anos 90

  1. Nao gosto de listas porque acho muito dificil, quase impossivel, faze-las.
    Mas a sua esta muito boa! Parabens!

  2. Lili Cunha diz:

    Excelente a lista! Me motivou a fazer uma também. Mas na minha jamais faltariam ‘A Bela e A Fera’, ‘Cães de Aluguel’, ‘Clube da Luta’ e ‘Os Suspeitos’. Entre os escolhidos por você, só dispensaria ‘JFK’. Grande abraço!

  3. Valeria diz:

    Bem, como já disseram fazer listas é tão complicado que eu nem arriscaria. Mas tem um filme de 91 eu acho, que não sai da minha cabeça nos últimos dias – Europa, do Lars von Triers. É do tipo fell-bad movies, lembro que saí em choque do cinema, mas vale a pena. Alguém viu? No mais, concordo em gênero, número e grau.

  4. valeria diz:

    p.s.: penso que a costumeira temática violência dos guetos de NY dos filmes do Scorcese continua presente sim. Só que em A Época… a alta sociedade nova-iroquina relega à sarjeta de luxo dos salões da burguesia puritana americana os indesejáveis como a boêmia e divorciada e cosmopolita Olenska – maravilhosa e insuperavelmente vivida pela Michelle Pfeiffer. Aliás a cena do vestido florido em frente à lareira resume tudo o que você falou. Até na literatura daria um filme: Poe tentando entrar no restrito mundinho dos litterati de NY por anos e morrendo com a cara na sarjeta.

    • Anderson diz:

      Nem me fale nesse filme do Poe! Aquela história do Viggo Mortensen sendo dirigido pelo Stallone (!) não vingou. Queria tanto q desse certo. Mas ainda sonho com o Tim Burton dirigindo a biopic do Poe.

  5. Romulo diz:

    O que mata A época da inocência é aquela narraçãozinha que grita pro espectador o que pode ser visto na tela. Versão dos 90’s do narrador de Pecados íntimos.

    E uma lista dos anos 90 sem Fogo contra fogo é suspeita ò.o

    • Anderson diz:

      Romulo: ehehe, adorei seu comentário. Gosto mto do Michael Mann e FOGO CONTRA FOGO é o melhor filme dele, mas sinto que a obra-prima do diretor ainda está por vir. E a narração da ÉPOCA DA INOCÊNCIA faz mais do que contar a história, ela é parte narrativa irônica proposta por Scorsese (e acredito que o de PECADOS ÍNTIMOS é ainda mais).

  6. Karine diz:

    Essa lista está muito boa!

    Eu adoro Na Época da Inocência, acho esse filme lindo.

  7. Weiner diz:

    Gostei bastante da sua lista, especialmente pelo vencedor, que é um dos poucos filmes que considero nota 10.
    Um abraço!

  8. Monica diz:

    Gostei da lista, mas senti falta de um filme que para mim, nao poderia estar fora: Natural Born Killers!

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