Top 50 – Videoclipes favoritos

E, finalmente, chega a hora de revelar meu videoclipe favorito. E ele é…

1- All is Full of Love (Bjork) – Dir.: Chris Cunningham

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A união de dois visionários rendeu o videoclipe mais tocante já produzido. Só que do encontro de Bjork com Chris Cunningham não poderia sair um clipe romântico qualquer. É um vídeo que seduz pelas sensações e pela riqueza de seu visual, que casa perfeitamente com a melodia hipnótica da canção.

Eu sempre achei que havia algo de robótico na Bjork, mas Cunningham levou as minhas suspeitas às últimas conseqüências. O diretor talvez seja o que melhor sabe utilizar os efeitos especiais não só na realização mas também na própria concepção da idéia do clipe. Mas ao invés do exagero, a tecnologia apenas auxilia na estética lírica que lhe é característica. Os vídeos de Chris Cunningham, no entanto, tendem para o gótico, sempre desafiando o espectador a enfrentar um aspecto sombrio inexplicável – estão aí Frozen de Madonna (videoclipe favorito #38), Only You do Portishead e seus assustadores clipes para o Aphex Twin que não me deixam mentir. Para All is Full of Love o desafio visual está lá, mas a escuridão da maioria de seus vídeos dá lugar a uma luz faiscante e o predomínio da cor branca.

Isso não quer dizer que não há algo de assustador no clipe. O robô-Bjork impressiona até hoje pelos efeito em que o rosto da cantora é perfeitamente articulado numa estrutura metálica (e copiado descaradamente no filme EU ROBÔ). O etéreo em All is Full of Love é ao mesmo tempo ritmado e confortante – o clipe tem toda uma cadência própria, quase em câmera lenta, num estilo que remete ao Kubrick de 2001. Por outro lado, o aspecto gélido é acolhedor, já que a robô-Bjork parece estar passando por algum tipo de conserto. Essa figura robótica híbrida, que ilustra a questão do pós-humano como eu nunca vi em nenhum filme, parece contudo estar infeliz quando é mostrada rapidamente em poucas cenas com o o olhar perdido no vazio. As máquinas reparadoras (como aquelas das montadoras de automóveis), continuam a fazer o seu trabalho.

A primeira grande surpresa do vídeo é o aparecimento de outro robô-Bjork  naquela sala iluminada (e cantando a segunda voz do refrão!).  Esse segundo robô estende a mão para o primeiro e há um corte para a segunda grande surpresa, um dos momentos mais lindos da história do videoclipe: os robôs se beijam.

A temáticada da sexualidade também é muito presente na videografia de Chris Cunningham, mas aqui ele lança uma nova luz sobre os limites do orgânico e inorgânico (e não é à toa que ele participou como supervisor de efeitos especiais nos dois últimos filmes da série ALIEN). Primeiramente, o beijo do clipe não é nada suave: ele é mostrado em toda a sua avidez e sensualidade, e a posição em que as duas figuras se encontram indicam um prelúdio ao sexo, com direito à mão na bunda e tudo.  Em segundo lugar, a presença das imensas máquinas atrás do casal acentua a artificialidade da cena, como se aquele ‘amor’ só fosse concretizado com o auxílio de uma estrutura mecânica despida (ou não) de sentimento. A iluminação fica menos acentuada, como se o próprio clipe quisesse respeitar a intimidade do casal ao colocá-lo na penumbra. Mas, finalmente, o mais impressionante de tudo é que as duas figuras que se beijam são praticamente iguais – são duas robôs-Bjork se beijando. Será que o amor no mundo moderno (rodeado de aparatos tecnológicos) é tão artificial que só se basta quando encontra a si mesmo? O outro que procuramos nesse mundo frio de lâmpadas fluorescentes é a apenas o reflexo de nós mesmos?

A simbologia do ato sexual misturado ao aspecto mecânico chama a atenção, especialmente a abundância do líquido branco espesso que envolve as duas figuras e escorre para cima desafiando a gravidade, e também a imagem do pistão que entra e sai constantemente do maquinário.

Um belíssimo clipe que me deixa atônito até hoje. O meu preferido.

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9 respostas a Top 50 – Videoclipes favoritos

  1. Srta. Bia diz:

    É não desconfiei que seria esse, mas é mesmo um clipe impressionante e único. Preciso descobrir se chegou a ganhar algum prêmio.
    Fora que é daquele tipo de clipe que parece curta-metragem do oscar de tão incrível e belo, casando tão bem com a música.

    • Anderson diz:

      Bia, le chegou a ganhar alguns prêmios de ‘breakthrough video’ e assim como outros clipes de Madonna e Nine Inch Nails, entrou pra coleção do Museu de Arte Moderna de NY. Merece!

  2. Wally diz:

    Amei a escolha. Adoro Bjork, e o clipe é dos mais originais!

    Ciao!

  3. Não sou um dos maiores fãs da Björk, mas tenho que reconhecer que os clipes delas sempre apresentam algum diferencial muito interessant – o que não foi diferente nesse escolhido. Parabéns por toda a lista!

  4. Valeria diz:

    Nem vi o clip – aliás não sou chegada a nada muito muderno e Björk é sinônimo disso, fiquei nos anos 80 e ponto – mas é a sua cara mesmo. De todo modo, plagiar alguma coisa do Eu,Robô já fez ela subir no meu conceito – se é que a idéia foi dela, claro…

  5. Gustavo M. diz:

    Ótima escolha! Todo mundo sempre lembra da dupla Gondry/Björk e esquece um pouco esse clipe – para mim, o melhor dela também.

    Dentre os diretores fodões, o Cunningham é o que tem o estilo que mais me surpreende e incomoda. É arte e ponto final.

    São clipes daqueles para ser ver num telão mesmo, não nos YouTubes da vida. Meus prediletos dele são os para o Aphex Twin.

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