Top 6 – Melhores filmes de 2008

Eu poderia fazer um Top 10 dos melhores filmes que vi no ano passado. No entanto, quatro deles, apesar de bons, estariam ali apenas para completar dez escolhas. Digo isso porque em 2008 apenas seis filmes realmente me fizeram pensar, sentir e interpretar suas histórias de forma diferente.

6-  NA MIRA DO CHEFE

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No início do filme, o espectador mais mal-humorado pode logo se perguntar: “Mais um filme sobre assassinos de aluguel engraçadinhos?” Contudo, NA MIRA DO CHEFE é muito mais. Recheado de simbolismo (culpa cristã, contos de fadas, Bosch), o ridículo das situações acaba por revelar um humanismo insuspeito à medida que o roteiro avança. Os esterótipos do gângster, do assassino e do turista são desconstruídos e expõem a sensibilidade dos personagens de uma forma surpreendente. Brendan Gleeson e Colin Farrell, em notáveis atuações, formam uma espécie de ‘odd couple’ como o cinema raramente vê – engraçados, porém perigosos; rudes, porém tocantes.

5- VICKY CRISTINA BARCELONA

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Falando em turismo, Woody Allen parece ter encerrado sua fase européia (depois de três filmes em Londres) na ensolarada Barcelona. A mudança de ares fez muito bem ao diretor, que proporciona uma de suas mais inteligentes e bittersweet comédias. VICKY CRISTINA BARCELONA é um filme todo de subtexto, onde as escolhas aparentemente simples dos personagens (interessante como essa temática da escolha e suas consequências está muito presente no Allen recente, como em MATCH POINT e O SONHO DE CASSANDRA) são aquilo que definem sua humanidade. Allen parte dos estereótipos mais manjados desse tipo de ‘filme de turismo’: viajantes americanos em busca de aventura, nativos exóticos, pontos turísticos da cidade etc – desse ponto de vista não há nada muito diferente de, digamos, SOBRE O SOL DA TOSCANA. No entanto, ao brincar com esses chavões, o diretor examina como por trás de um aparente escapismo se esconde a tão sintomática anomie das classes abastadas. Para ver diversas vezes. E como pode a Patricia Clarkson ser arrasadora em uma cena?

4-CLOVERFIELD

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Até agora, o mais relevante filme live action de ficção científica dessa década. CLOVERFIELD consegue não só ser o melhor filme sobre o zeitgeist americano pós-9/11, como também uma das grandes obras a abordar a onipresença da imagem na sociedade. Monstros atacando metrópoles nunca são monstros atacando metrópoles – são, entre outras coisas, movimentos caóticos que se instauram para aniquilar o status quo. Sejam elas ataques terroristas ou a fragmentação da realidade, ambos se apresentam como forças capazes de destruir os mais sólidos dos prédios, ou os mais consistentes pilares do real.

3- O CAVALEIRO DAS TREVAS

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Nesta época negra, haveria melhor herói do que aquele que vaga a noite fazendo justiça com as próprias mãos – e ainda vestido de morcego??? Juntar esse herói (que o filme inteligentemente transforma em anti-herói exatamente no momento em que ele é mais heróico) com um justiceiro que segue a lei e paga o preço por isso (Harvey Dent) é ótimo, mas o golpe de mestre é colocar entre eles uma figura anárquica, que está além do limite da lei e do crime. O Coringa ultrapassa os limites pré-estabelecidos pela sociedade (daí a discussão dos críticos norte-americanos se o personagem seria um terrorista ou não), mas ainda assim acredita estar fazendo o que é justo. Neste grande panorama moral/social, ser brindado com atuações estupendas é apenas a cereja do sundae.

2- WALL-E

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A grande ficção científica dessa década é uma animação voltada (aparentemente) para crianças. No entanto, não tem como negar que é o filme mais maduro da Pixar (mesmo que o posto de ‘melhor’ ainda esteja firme com RATATOUILLE). MezzoChaplin pós-apocalíptico’, mezzo ‘história de amor entre o analógico e o digital’, o filme mesmo em seus momentos divertidos não perde o tom crítico, seja ambiental (a destruição da natureza) ou social (a infantilização da sociedade). De quebra, uma aula de humanidade dada por um robô. Inesquecível.

1- SANGUE NEGRO

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Se a atuação de Daniel Day-Lewis já entrou para a história como uma das maiores do cinema, com SANGUE NEGRO Paul Thomas Anderson se consgrou como o maior ‘novo’ talento do cinema americano contemporâneo. O diretor trabalha com temas nada modestos (Religião! Ambição! Família! A construção da América!), dando tintas kubrickianas a uma narrativa épica que dura décadas. Os diálogos inesquecíveis (entre eles, aquele sobre certa bebida), as imagens marcantes, e as atuações inspiradas (Paul Dano!) fazem desse filme não só ser complexo, mas também um próprio estudo sobre a complexidade.

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