CONTROL

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Quando escrevi sobre I’M NOT THERE lá embaixo, falei de como não gosto muito de cinebiografias, especialmente as musicais, já que todas parecem seguir a mesma fórmula (Judd Apatow, aliás, vai lançar um filme exatamente sobre o tema que parece ser bem interessante).

No entanto, esse ano estou sendo obrigado a morder a língua. I’M NOT THERE é luminoso, PIAF pode ter os seus defeitos mas é um bom filme (depois escrevo sobre ele aqui) e CONTROL, o filme sobre Ian Curtis, é de uma delicadeza que assombra. Dirigido por Anton Corbijn, novato em longas-metragem mas um verdadeiro visionário do videoclip (seu trabalho em especial com o Depeche Mode é arrebatador), CONTROL segue de forma aparentemente simples a vida de Ian Curtis, desde o anonimato nos arredores de Manchester, passando pelo sucesso repentino, as crises no relacionamento, até o suicídio quando tinha 23 anos.

É um trajeto em linha reta, que por si só é perigoso, porque o que não falta é assunto e, especialmente, liberdade de interpretação para a biografia e a obra de Ian Curtis. Podendo falar de muita coisa (a influência da Manchester pós-industrial, o processo criativo, a influência dos ataques epiléticos na sanidade de Curtis, o peso da fama) Corbijn e o roteirista Matt Greenhalgh preferem despir os acontecimentos e as ações de Curtis de significado, deixando as conclusões por conta do público.

CONTROL consegue o que poucos filmes desse tipo conseguem, que é mostrar o artista no ambiente familiar despido da aura de ‘gênio incompreendido’ que o persegue. Há o Ian Curtis nos shows do Joy Division (Sam Riley, em atuação mediúnica) e há o Ian Curtis que tem que lidar com a crise no seu casamento com Debora (Samantha Morton, sempre talentosa, que já tinha trabalhando com Corbijn no onírico clipe de Electrical Storm do U2).

O cinza da fotografia dá o tom ao filme, mas surpreendentemente CONTROL não é pesado. Pelo contrário: há várias cenas engraçadas. Em outros momentos, no entanto, algumas atitudes tristemente patéticas de Curtis (quando afirma qual o seu filme favorito, por exemplo) arrancam aquela risada triste, porque beiram o limite do fardo de viver.

No que se relaciona a música, não poderiam faltar os hits. Inteligentemente, Corbijn orquestra as canções do Joy Division de formas diferentes: Transmission é tocada em tom documental, como no show de Tony Wilson; She’s Lost Control é mostrada desde a composição até a primeira execução; Love Will Tear Us Apart, como se fosse um comentário à ação que se desenrola na cena. Vale ressaltar que nas cenas de show ao vivo, não há playback: todos os atores realmente tocam os instrumentos em cena – e Sam Riley canta com a voz lúgubre de Curtis.

O final do filme, como não poderia deixar de ser, é espetacularmente triste – e a decisão de fazer com que o suicídio de Curtis seja um ato despido de explicações fáceis dá ainda mais força ao silêncio que toma conta da sala de cinema.

Assim como a fumaça negra que toma conta da tela ao final da sessão, CONTROL nos envolve de forma simples, mas nem por isso menos densa.

(Anderson)

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